Trabalho e criatividade são parte do nosso amor a Deus

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
Álvaro Campos, em “Tabacaria”.

Dominados pela ansiedade, papais e mamães mais previdentes (e um tanto obcecados) iniciam logo após o nascimento o planejamento do ingresso do filhote na vida profissional. “Idade da criança?”, pergunta a secretária daquela escola carésima e disputadíssima. “Cinco meses”, responde um tanto desolado o pai.

Pronto. O filho será alfabetizado em três idiomas, mas a mãe já brigou que o moleque deverá aprender mandarim desde cedo porque leu em algum lugar que “a China está crescendo bastante”. “Por um bom salário ele pode até abrir uma pastelaria lá em Tóquio, capital chinesa”, confunde a bem-intencionada senhora.

Profissões em declínio, algumas carreiras quase extintas, novos modelos de relação profissional, gente trabalhando em casa, empresas da lista da Fortune desapareceram, funcionários chegam a morrer por excesso de trabalho enquanto o desemprego subtrai a esperança de milhões de trabalhadores.

As mudanças acontecem em ritmo acelerado no mundo corporativo. No entanto, certo tipo de (pré)conceito remete aos dias em que Adão e Eva flanavam pelo jardim sem iPod e iPhone. Avaliar o trabalho como “maldição” atravessou diversos períodos da história e continua arraigado no subconsciente de zilhares de pessoas. Por extensão, a segunda-feira é o dia mais terrível da semana e a sexta-feira prenuncia a libertação desse “mal”.

O bicho-homem aprendeu a se preparar para desenvolver habilidades e ter uma carreira ascendente, porém ainda não é capaz de harmonizar vida pessoal e profissional. Cada área segue estanque e os efeitos dessa dicotomia podem ser identificados nas esferas física, mental e espiritual. Yes, com exceção de clérigos de quaisquer religiões, todas as demais atividades parecem nada ter que ver com as coisas do espírito. Eternos petizes discípulos de Mani, continuamos dividindo o mundo em quente/frio, ajunta/espalha e, principalmente, carne/espírito.

Esta não é a posição defendida por Paul Stevens. Neste livro necessário e bem-vindo, o escritor afirma que “trabalho e criatividade são parte do nosso amor a Deus e canais de bênçãos divinas”. Ousado, ele assevera que “empreendedores são sacerdotes de Deus”. Fruto de pesquisa meticulosa e abundante em citações, a obra apresenta ao final de cada capítulo questões para debate, evitando o dilema teoria versus prática.

O objetivo do escritor não é meramente a exposição de teorias novas ou “recauchutadas”. Mais que isso, Stevens propõe mudar a estrutura de pensamento que a maioria dos cristãos tem sobre o tema. Lembrando o que disse o filósofo grego Epicteto, “não são as coisas em si mesmas que inquietam os homens, mas as opiniões que eles formam sobre estas coisas”.

Passamos boa parte de nossa vida no ambiente de trabalho. Dependendo da atitude que mantivermos, será “investimento” ou “desperdício”. Segundo o Rabino Jonathan Sacks, “não se escolhe entre acreditar e agir, pois é por meio das ações que expressamos nossa fé e fazemos dela uma realidade presente na vida de outros e no mundo”. Infelizmente, os termos “cristão” e “excelência” ainda parecem imiscíveis em quaisquer que sejam as áreas.

Ainda assim, seguimos sonhando exercer algum tipo de influência terapêutica neste “mundo fraturado”. Lembrando novamente a genialidade do poeta português:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Boa leitura, bons sonhos… e bom trabalho!

prefácio que escrevi p/ o livro Deus e o mundo dos negócios, de Paul Stevens. A obra é um dos próximos lançamentos da Editora Palavra.

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