Outras palavras

“O que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões.”
Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo

Nos últimos anos, participei da escolha do título de mais de 700 livros. Ainda que tratando-se de obras traduzidas na maioria dos casos, a dificuldade no “batismo” não foi menor. Que equação complicada escolher algumas palavras que traduzam a proposta do autor e, ao mesmo tempo, instiguem os potenciais leitores!

Viciados em mediocridade preenche ambos os quesitos de forma notável. Antes mesmo de iniciar a leitura do texto, o título provocante já suscita questionamentos e (in)conseqüentes reflexões. Difícil permanecer impassível ante um diagnóstico tão contundente…

Embora escrito na década de 80, a mensagem do livro permanece atual e é especialmente bem-vinda no Brasil. Enquanto desperdiçamos pelo menos duas décadas esgrimindo para usar bateria nos templos, a fila andou no mundo. E bastante.

Claro que sempre existiram vozes dissonantes por aqui. Algumas se levantaram para insurgir contra hinos americanos enlatados. Não sei se o queixume adiantou, mas há quem esteja supersatisfeito com novidades no cardápio do tipo canções em versão light… made in Austrália. Como cantava o Cazuza, “um museu de grandes novidades”. Não apenas o futuro repete o passado… somos todos repetentes no supletivo da inovação.

“De nada serve partir das coisas boas de sempre mas, sim, das novas e ruins.”
Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta

Em meio à penúria reinante, algum espertinho criou uma solução que continua sendo avidamente deglutida pelo rebanho. O conteúdo é sofrível e sem qualidade? Basta pospor um adjetivo. Assim, temos a “adoração extravagante” e a “dança profética”, entre inúmeros ardis de eficácia nula fora do quadrado evangélico. Círculo apenas se pensarmos na retroalimentação que move nossa irrelevância.

Basta alguém iniciar uma discussão sobre a indigência artística cristã para descobrirmos que a mediocridade se estende também à capacidade de reflexão do rebanho. O tema em questão rapidamente é esquecido e recorre-se a uma infinidade de chavões do tipo “não tocar no ungido”, “até a mula de Balaão foi usada”, “Deus olha o coração”, “em vez de criticar devemos orar”, “quantas almas você ganhou?”, entre outros clichês menos cotados.

Adeptos desse tipo de reducionismo ficarão perplexos e possessos (sem trocadilho) com os termos usados por Schaeffer nestas páginas. O cara massacra impiedosamente a produção cristã… Essencial lembrar que o escritor se refere aos Estados Unidos. O que ele escreveria se desse uma passadinha aqui na terra das unções, levitas, sapatinhos de fogo e quejandos?

Pensando melhor, ele não deve aterrissar aqui porque anda meio ocupado com a faxina nos armários familiares. Em meio a muita poeira, revelações pra lá de indiscretas enxovalharam a imagem do papai Francis Schaeffer. A morte da razão?

“O revolucionário inventa as idéias. Quando as exaure, o conservador adota-as.”
Mark Twain, humorista e escritor

Em certos trechos da obra, Franky deixa a Arte de escanteio para sublinhar pensamentos hiperconservadores. A química parece meio estranha, afinal é comum ligar “arteiros” e artistas ao pensamento liberal. Mais uma vez o Brasil mostra ao mundo o seu caráter singular. Neste país tropical abençoado por Deus tanto os expoentes tidos como “liberais” quanto os “ortodoxos” pouco ou nada entendem do assunto. Mansa gente brasileira!

Sem a guarida dos teólogos, outra opção para estimular o debate seria usar as lentes da mídia. Um rápido exame mostra que as revistas ocupam-se de veleidades e temas relevantes como a festa de aniversário dos rebentos de cantoras de nomes tão improváveis quanto desconhecidos… Ao menos as publicações não escorregam no quesito harmonia: são ruins de capa e de conteúdo. Deselegância nada discreta.

Antes de pensar em possíveis epitáfios para a arte cristã verde-amarela, restam duas opções: livros e internet. Se você está com este livro em mãos, só o seu interesse pelo assunto já me faz aplaudir efusiva e pentecostalmente. O triste é lembrar que o Schaffer vai falar somente com alguns milhares de leitores, enquanto mantras e baboseiras em ritmos variados continuarão entorpecendo os ouvidos e a mente da turba.

No entanto, como tenho o gene da rebeldia impregnado nas cadeias do DNA, não acredito em soluções prontas. Da mesma forma que discordei de muitos lances elencados nestas páginas, espero que você siga pela mesma trilha, questionando e refletindo sobre cada ponto abordado. Como o livro apresenta uma espécie de “monólogo” doe seu autor, graças a Deus existe a internet para dar voz e vez aos leitores. Vários sites e blogs vão publicar esta diatribe prefacial, possibilitando a (re)ação e interação de todos. Se a palavra “viciados” indica a necessidade de cura, penso que o caminho terapêutico indubitavelmente passa pelo debate.

“Aos melhores falta toda convicção, enquanto os piores são cheios de apaixonada intensidade.”
W.B. Yeats, poeta e dramaturgo

Como diria certo molusco, nunca antes neste Reino discutiu-se tanto sobre Arte. Meu reconhecimento e gratidão aos amigos Whaner e Ana Claudia pela contribuição que a W4 e o Cristianismo criativo têm dado ao rebanho. Se podemos vislumbrar um horizonte menos caótico no cenário artístico cristão, certamente o desvelo e a ousadia de vocês tem parte nisso.

A existência de limitações diversas não nos acovarda. Ao contrário, nos leva à ação diligente. Em nossa extensa lista de pecados e falhas não há de constar aquilo que o Rabino Jonathan Sacks classifica de “culpa do espectador”. O que estiver ao alcance de nossas mãos faremos com o melhor de nossa energia. Nas palavras do profeta João Bosco, “a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”. Yes, the show must go on!

prefácio que escrevi p/ o livro Viciados em mediocridade, próximo lançamento da W4 Editora.

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