Pequenos e terríveis

As crianças adoram-me. Não exagero, não minto. Quando vou jantar a casa de amigos com filhos, o filme é repetidamente o mesmo: entro na sala; as crianças apercebem-se da presença de um iman magnético; aproximam-se; e, durante o serão inteiro, vão despejando em cima de mim uma quantidade obscena de substâncias alimentares que dariam para alimentar tribos inteiras: chocolate, sorvete, batatas, arroz, gorduras. Certa vez, houve sangue nasal. Sem falar das que vomitaram depois de tanta trepidação. Ao fim da noite, estou transformado numa tela de Pollock em tamanho natural.

Eis a verdade: sou o caixote do lixo dos filhos dos meus amigos. E os amigos, quando assistem a tudo, olham para mim embevecidos e ainda perguntam: “É um anjo, não é?”

Eu respondo que sim, e depois penso naqueles anjos que John Milton descreve no “Paraíso Perdido”: os anjos do inferno, reunidos no Pandemonium e prontos para arruinar a Humanidade. Por polidez, nada digo sobre as infernais criaturas. E prometo a mim próprio que jamais regressarei ao mesmo lugar sem trazer um fato de mergulho com escafandro.

E se vocês pensam que o problema se limita a crianças autónomas, que saltam e correm (sobre mim), enganam-se. Regularmente, também há recém-nascidos neste quadro. Alguém dá à luz. E eu sei, com o temor próprio dos antigos profetas, que mais cedo ou mais tarde haverá o “teste do berço”. Em que consiste esse teste?

Muito fácil: o teste acontece quando fazemos uma visita aos novos pais e, confrontados com o rebento que mexe no interior do berço, sentimos uma obrigação social de dizer algo de “simpático” e “profundo”. Confesso que já passei todos os testes desta vida: da escola primária ao doutorado. Mas nenhum me faz tremer tanto como a expectativa dos pais quando eu olho para o bêbe deles. Faz-se um silêncio. Eu analiso o recém-nascido sem discernir nada de particularmente singular: um bêbe igual aos outros.

Indiferente. A pressão adensa-se como num filme de Hitchcock. E antes que alguém apareça com uma faca na mão, eu solto o clássico “é a cara da mãe”, não vá errar na identidade do pai. Os progenitores suspiram de felicidade e acrescentam: “Já sei, queres pegar nele ao colo, não é.”
Eu digo que não (mentalmente) e digo que sim (oralmente). A criança é-me plantada nos braços e eu fico, tipo estátua, como se me tivessem largado uma granada nas mãos. O suspense só termina quando a granada explode em choro. Ou, pior, em leite sobre mim.

Entendam: conheço a história da infância no Ocidente. E não me passaria pela cabeça um regresso à medievalidade cristã, que olhava para a infância como fase indistinguível da idade adulta. Festejo os progressos da modernidade que, sobretudo a partir do século 18, souberam tratar as crianças como crianças, entendendo as suas necessidades e fragilidades.

O problema é que os pais de hoje não olham para as crianças como crianças. Mas como brinquedos articulados, ou pequenos animais de estimação, que servem para entreter, embaraçar ou simplesmente importunar os outros. Na Idade Média, as crianças eram erradamente tratadas como adultos. Mas o século 21 viajou até ao outro extremo: permitiu que os pais se convertessem em crianças pela forma sentimental e deslumbrada como tratam das suas.

João Pereira Coutinho, na Folha Online.

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