Desconstruindo minha cristandade

Todo mundo, ou quase todo mundo, sabe que a Bíblia é uma coletânea de livros, os quais possuem as mais diversas autorias e períodos, grande parte deles repletos de parábolas e metáforas. O que muita gente ignora é o motivo, a razão para a presença destas tantas parábolas e metáforas em muitos destes livros. Em decorrência disso, a imensa maioria dos cristãos mostra-se incapaz de perceber os maus usos que delas são feitas. Em tempo: qualquer parábola ou metáfora presta-se muito mais à má interpretação do que algo comunicado diretamente, mas pretendo limitar-me aqui aos casos típicos da cristandade contemporânea.

Para começar, uma definição elementar de metáfora e de parábola. A metáfora é um substituto, em geral sob a forma de imagem, de algo que poderia ser dito de outro modo. Por exemplo: “Sim, teus seios são como cachos de uva, e o sopro das tuas narinas perfuma como o aroma das maçãs”, no Cantares de Salomão, poderia ser “teus seios pendem deliciosos e tua respiração é cheirosa”. A metáfora normalmente possui, portanto, uma função poética, mas, em alguns casos, ela também tenta dar conta de realidades sobre as quais o autor tem dificuldades em expressar-se de um outro modo, como é o caso dos livros proféticos, por exemplo. Já a parábola costuma ser mais complexa que a metáfora, pois trata-se de uma história construída através de imagens.

Diferentemente da metáfora, a parábola não necessariamente é poética, pois sua função é eminentemente pedagógica, isto é, a parábola pretende ensinar algo, transmitir uma mensagem, um ensino. Às vezes, porém, esse ensino lança mão de metáforas e de suas imagens com o intuito de tornar-se mais acessível, mais próximo da realidade do público em questão.
No entanto, tanto a metáfora quanto a parábola, justamente por seu caráter substitutivo, indireto, impreciso, permanecem encobrindo parte daquilo que pretendem comunicar.

Em outras palavras, não há substituição perfeita e completa, há uma aproximação. Assim, a parte reservada ao obscuro ficará por conta do leitor ou ouvinte, o qual avançará ou recuará conforme suas próprias tendências interpretativas. Tal face nebulosa da metáfora e da parábola pode ser encarada como uma “deficiência” comunicativa. Por outro lado, esta mesma face pode ser tomada como uma fuga da objetivação, como um resguardo do mistério, como uma eterna abertura ao ainda não considerado, não dito, não pensado, não decidido.

Deste modo, ao que tudo indica, grande parte dos ensinos e imagens presentes nos textos bíblicos, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, possuem aspectos poéticos, pedagógicos e axiológicos. Entretanto, e como disse acima, justamente por seu caráter constitutivamente impreciso, não podem ser tomados literalmente, mas contextualizados e analisados naquilo em que não se resguardam no obscuro, naquilo de mais objetivo, de mais claro, naquilo que expressa o princípio, o ensino em xeque. Claro, muito se perde ao não se objetivar o misterioso, mas também muito se ganha em espaço para a diversidade de concepções no que tange ao não essencial.

Um dos meus exemplos favoritos a respeito desta questão é a passagem em que Jesus se identifica como o pastor das ovelhas (João 10). Jesus lança mão desta imagem extremamente familiar ao povo judeu e recorrente no Velho Testamento como exemplificação do tipo de cuidado que tem com aqueles que são seus: um cuidado que vai desde a alimentação, o local de pastagem, de repouso, a pelagem, a familiaridade, até a segurança contra perigos diversos; enfim, um cuidado em tudo superior àqueles que são cuidados, um cuidado do tipo que uma criatura racional tem para com suas criaturas irracionais, as quais ama e se dedica.

A história, inclusive a história imediatamente posterior a Jesus, apropriou-se do termo “pastor”, aplicando-o para além do uso simplesmente metafórico dado por Cristo. Todavia, mantendo o sentido original, o único capaz de ver-se como pastor é o próprio Cristo, ninguém mais. Ninguém mais encontra-se em condições de colocar-se num lugar imaginário de racionalidade diante de seguidores irracionais, por maior amor e dedicação que apresente. E este é o ponto: é possível ser rabi, ser mestre, ensinar e fazer discípulos, mas é impossível ser pastor e ter ovelhas, a menos, obviamente, que estejamos falando em termos de pecuária. O único pastor que reconheço e sigo é o próprio Cristo e ninguém mais. Sou uma ovelha apenas na metáfora, pois sou racional.

Por essa simples razão é que brinco com aqueles que me perguntam qual igreja freqüento, quem é o meu pastor, quem é minha cobertura espiritual, respondendo, simplesmente, que sou adepta do anarquismo cristão. Metáforas e parábolas acariciam os ouvidos com poesia, indicam um caminho, resgatam princípios, mas são feitas, especialmente, para fazer pensar e não para serem tomadas como uma equação matemática ou como uma fórmula química. Há que se manter a todo custo o espaço inerente às imagens destinado ao Mistério, ao Desconhecido, Àquele que fez e faz todas as coisas como bem entender, Àquele que não precisa da ajuda de ninguém, Àquele que não cabe em nome, palavra ou imagem alguma.

Camila Hochmüller, no blog Metamorfoseantemente.

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