Ser bom é coisa grande

É sempre legal fazer a coisa certa. Só que às vezes a gente precisa forçar um pouco a própria barra para ser correto. Para não rir de uma piada de mau gosto que soa realmente engraçada. Para ser gentil com alguém insuportável. Para parar, carregado de sacolas e apetrechos, e juntar o lixo que caiu no chão, no shopping ou na rua. Para dedicar tempo e atenção num dia especialmente tumultuado a um amigo que quer falar. Ser bom significa dar um pouco de si para os outros, seja para um indivíduo em específico ou como contribuição à harmonia coletiva. E ser bom produz uma sensação muito bacana. Como só sabe quem faz a sua parte e ainda vai além, entrega um pouquinho mais. Como jamais saberá quem é egoísta ou perverso, mal-intencionado ou mau-caráter, ou tudo isso junto.

Quem aprecia esse esporte, de buscar ser justo, de buscar fazer o bem (ou ao menos o que é certo), acreditando que entregar ao mundo esse tipo de aporte significa contribuir de forma prática e concreta para um mundo melhor, sabe que a coisa toda brilha mais intensamente quando você percebe que está fazendo a coisa certa sem precisar fazer a menor força. Quando você percebe que a correção é a sua reação natural diante daquela situação. E que você não precisa forçar nenhuma barra interna para agir certo. Nenhuma postura pensada e refletida sobre como reagir corretamente naquele momento é requerida. A reação simplesmente vem. E você se orgulha dela.

Lembro do primeiro beijo entre dois homens que eu vi na vida. Num ambiente de teatro, num campus universitário, no começo dos anos 90. Sempre pensei que aquilo iria me chocar barbaramente. E eu assisti àquilo com grande naturalidade. Ainda que a intenção daqueles garotos fosse grandemente chocar a audiência, eu não fiquei chocado. E me senti bem por isso. É como se meus gestos garantissem coerência às minhas idéias. Ou como se meus princípios estivessem sendo testados na prática – e sobrevivessem.

A vida corporativa oferece todo dia esse tipo de teste de princípios. E oferece um milhão de prêmios para quem se trair, para quem rasgar a própria carta de intenções diante da vida em troca de um punhado de amendoins. Torço para que você tome as decisões corretas. E para que elas lhe sejam o mais naturais possíveis.

Adriano Silva, no Portal Exame.

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