A igreja tem as suas razões

LUDWIG WITTGENSTEIN foi um dos filósofos mais interessantes do século que passou. Ele era fascinado pela linguagem. Observando a forma como usamos as palavras, ele chegou à conclusão de que, ao falar, nós estamos jogando um jogo.

Imagine, como exemplo, um jogo de cartas. Com as mesmas cartas, muitos jogos diferentes podem ser jogados: buraco, pôquer, mau-mau, rouba-montinho, bridge, boa-noite-meu-senhor, truco etc. As cartas são as mesmas. Mas em cada jogo -e em cada situação do jogo- as cartas têm sentidos e usos completamente diferentes. Para que as cartas tenham um sentido preciso, necessário se faz que os jogadores estejam jogando o mesmo jogo. Substitua a palavra “carta do baralho” por “palavra” e você entenderá o que Wittgenstein tinha em mente ao falar de “jogos de linguagem”.

Um dos primeiros livros que li foi “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift (1667-1745). Mas o meu livro com ilustrações e letras grandes só contava da viagem que Gulliver fez a Liliput. Não me entusiasmei. A obra só me entusiasmou quando, já adulto, li sobre outros países por ele visitados, em especial o de Lagado, país das universidades, sobre o qual vou escrever posteriormente.

Chamou a minha atenção de forma especial as investigações e propostas que estavam sendo feitas pelos cientistas do Departamento de Linguística.

O uso da linguagem tem por objetivo tornar possível a comunicação entre os seres humanos. Falamos para ser entendidos e para entender. Os linguistas objetaram: “Sim, é verdade que usamos as palavras para sermos entendidos e entender. Mas a verdade é o oposto. Todos os desentendimentos acontecem em virtude do uso que fazemos das palavras: eu falo uma coisa, meu interlocutor entende outra…”.

Então, o objetivo da comunicação exige a abolição das palavras, porque é nelas que se encontram as raízes do desentendimento. Para que haja comunicação sem desentendimentos, é preciso que as palavras sejam substituídas pelas coisas que elas representam.

Gulliver relata então que os linguistas adeptos dessa teoria caminhavam arrastando enormes sacos onde punham os objetos sobre os quais eles poderiam falar. Ao se encontrar -e especialmente nas reuniões do departamento-, cada professor abria o seu saco, tirava de dentro dele os objetos relevantes e, em silêncio absoluto, mostrava um objeto ao seu interlocutor que, por sua vez, respondia mostrando outro…

Escrevi esses pensamentos como prolegômenos a um projeto de comunicação com a Igreja Católica. Porque, lamentavelmente, a confusão e mesmo a ira que têm se seguido aos pronunciamentos de arcebispos ou do papa são evidências de que, falando palavras que todos entendemos, não estamos jogando o mesmo jogo. Os porta-vozes da sã e imutável doutrina da igreja (essa afirmação se constitui numa das primeiras regras do “jogo linguístico” que fala a igreja oficial) se entendem. Mas não os cientistas, filósofos e humanistas.

Quanta confusão acontece quando a palavra “camisinha” (consultei o Houaiss: a palavra “camisinha” está lá, quietinha, sem provocar confusão) é pronunciada. Bastou o papa falar “camisinha” para que o berreiro acontecesse. É preciso não nos esquecermos de que por detrás da loucura existe uma razão. A igreja tem as suas razões.

Dedicarei meu próximo artigo à palavra “camisinha” -não para defendê-la ou condená-la, mas para compreendê-la…

Rubem Alves, na Folha de S.Paulo.

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