Cheiros do futuro

Notícias da Europa: uma empresa suíça resolveu dar o último passo para ajudar os internautas a escolher o par ideal. Segundo a Basisnote, as pessoas frequentam cada vez mais sites de encontro. Trocam memórias, experiências, gostos comuns. Mas falta o cheiro. O cheiro é fundamental para avaliar a compatibilidade entre os potenciais amantes.

Falta, não. Faltava. Agora, os suíços desenvolveram um mecanismo que permitirá a qualquer internauta digitalizar o seu próprio odor e enviá-lo ao objeto do seu afeto, como quem envia uma foto ou um e-mail. Os suíços, apoiados pelos mais recentes estudos científicos, concluíram que as mulheres preferem homens com um sistema imunológico diferente do seu. A ideia dos suíços é permitir que o macho tente a sua sorte pela net; e que a fêmea, ao receber o cheiro, encoste o nariz a uma espécie de ventilador informático e se encante com o odor do príncipe.

A história não tem nada de excepcional. Eu próprio, em conversas com criaturas várias, vou aprendendo as novas virtudes da tecnologia, que me reduzem imediatamente a uma condição jurássica. Amigos e familiares, sem falar de alunos, confessam sem pudor que têm dezenas de conhecidos virtuais, com quem desenvolvem cumplicidades impensáveis na vida banal. Um deles tem três relações amorosas, com três mulheres de três continentes distintos. Nunca se viram, nunca se tocaram, nunca se beijaram. Mas isso não impediu que uma delas (a australiana) tenha entrado em depressão por alegadas “infidelidades”.

Eu escuto tudo com o pasmo típico dos terráqueos. E sempre vou perguntando se não seria preferível aos novos amantes do século 21 descerem da nave espacial para caminharem pelo planeta Terra. As vantagens do turismo são óbvias: poupa-se em eletricidade, exercita-se o físico e sempre é possível olhar, conversar e até cheirar um outro membro da espécie humana sem nenhum tipo de mediação eletrônica.

Eles olham-me com um certo horror de superioridade e eu percebo que o meu reino já não é deste mundo. Um mundo de relações virtuais, com amores e traições virtuais, onde tudo feito e desfeito na mais perfeita solidão real.

E isso é apenas o começo. No futuro, não será apenas possível cheirar o “amante” sem nunca o conhecer, mas eventualmente fazer amor com ele, conceber um “filho” e quem sabe educá-lo como quem concebe e educa uma espécie de vírus que só existe no computador.

Só espero que, quando esse dia chegar, os suíços sejam capazes de inventar novos cheiros para ajudar os novos “pais”. Mudar as fraldas da “criança”, por exemplo, vai precisar de um cheirinho especial.

João Pereira Coutinho, na Folha Online.

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