Bons livros são como remédio

Mês do livro, bookcrossing, biblioteca viva, ranking de leitura e tantas outras coisas legais rolando por aí, enquanto outras esperam por uma oportunidade. Em meio a este clima, resolvi recomeçar a leitura de Biblioterapia, de Marc-Alain Ouaknin – filósofo, rabino e biblioterapeuta.

Para quem tem o hábito de ler, não é novidade o fato de que há em alguns livros algo de terapêutico, de medicinal, de libertador. Todavia, mais do que uma vaga impressão, Marc-Alain mostra em detalhe os motivos que justificam tal suspeita.

Servindo-se de autores das mais diferentes procedências e períodos históricos, mas baseando-se, fundamentalmente, na tradição judaica que nasce da mistura entre o hebraico, a Torá, o talmud e a cabala, o autor explicita o quanto a fixação na palavra e numa determinada interpretação aprisionam e, em contrapartida, o quanto a consideração da letra e das diferentes interpretações libertam, devolvendo ao texto e ao leitor o fluir tão necessário à vida e ao crescimento.

O núcleo de nossa reflexão sobre a biblioterapia repousa no encontro linguístico de duas palavras, uma grega e outra hebraica, as duas significando “cura”, “remédio” e “terapia”, therapeía e terufá, duas palavras quase homófonas, que talvez nos ensinem a ideia fundamental de que curar é traduzir, abrir-se a uma outra dimensão, sair de todo encerramento dogmático, teológico, filosófico, artístico, etc…

A leitura biblioterapêutica é uma operação de disseminação que restitui a vida, o movimento e o tempo no coração mesmo das palavras; é assim que ela as constitui como obras de arte e as subtrai aos riscos do ídolo. Aqui, as palavras não são finalizadas pelo sentido, mas pelos sentidos…

A leitura é revolução, a vida novamente dada à linguagem nesta leitura “destruidora” é revolução porque “a revolução está em todo lugar em que se instaura uma troca que quebra a finalidade dos modelos”. Assim, a leitura encarna uma atitude de contestação diante da tradição. A leitura é um obstáculo à transmissão dos estereótipos e dos discursos ideológicos…

Se, por um lado, os índices de analfabetismo ainda são altos em nosso país, por outro, vivemos em um tempo de propagação da interpretação literal, do recitar de mantras, do dogmatismo e do engessamento da verdade. Biblioterapia, especialmente neste contexto, torna-se, mais que uma leitura inquietante e provocadora, torna-se também uma prática necessária.

Camila Hochmüller

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