Como medimos nossa vida?

A lei antifumo de José Serra, que vai proibir o cigarro em quase todos os ambientes fechados do estado de São Paulo, me faz pensar na medida da vida. O cigarro faz mal, causa câncer e outras doenças, o tratamento custa dinheiro público do SUS, sem contar o inventário de mortes. Bani-lo dos bares e restaurantes, dos locais de trabalho, de quase tudo menos a casa do fumante (por enquanto), em tese é pensar na defesa da vida. É também estar adequado a esses tempos em que a saúde tornou-se um valor absoluto para uma espécie que lida de forma cada vez pior com a certeza da morte.

A questão que a lei evoca em mim, porém, é outra. É a da vida condenada não pela doença, mas pela saúde. A cada manhã, fingimos que nunca vamos morrer. Queremos esticar a vida a qualquer preço – e não apenas a vida, mas a juventude. Envelhecer e morrer nos aterroriza. As cirurgias plásticas, os cosméticos, as vitaminas, os medicamentos ortomoleculares, os alimentos orgânicos, os lights e os diets, as academias movimentam uma gigantesca indústria alimentada pelo nosso medo da decadência e do fim. Crescem e multiplicam-se pela força de nossa ilusão de que a velhice e a morte podem ser burladas.

Um número cada vez maior de pessoas consome seus dias numa rotina de cuidados para preservar saúde e juventude. Exercícios e pílulas. Cremes e vitaminas. Alimentos orgânicos. Carnes margas. Nada de fritura. Mais exercícios. Cigarro, jamais. Álcool, cada vez menos. Ovos, consulte a pesquisa do momento. Gorduras trans, fuja.

Tomamos todos os cuidados, olhando para os lados para nos assegurar que o fim não nos espreita. Sempre com medo de que a doença, a decrepitude e a morte nos descubra distraídos em alguma esquina de prazer roubado. Quando transgredimos, nos sentimos culpados, algo catastrófico vai nos acontecer. Seremos punidos pela nossa ousadia de nos entupir de chocolate ou nos exceder no bar. Corremos para o espelho para ver quantas gramas aumentamos ou se não surgiu uma ruga nova. Estamos mais velhos? Estamos mais mortos? – é o que perguntamos o tempo todo, mesmo que não pronunciemos a palavra fatal.
Mas será que temos de não viver para viver? Ou melhor: qual é a medida da vida?

Há pouco tempo, revi o filme sobre a trajetória do Cazuza – Cazuza, o tempo não pára (2004.) Herói dos anos 80, Cazuza contraria todos os valores de uma vida plena de saúde física. Nada mais distante de Cazuza do que essa cidadania cheia de proibições. Aquele que talvez tenha sido, como disse Caetano Veloso, o maior poeta de sua geração, morreu jovem, de Aids, ao fim de uma vida de muito sexo, álcool, drogas, amores e poesia. Mas não foi essa morte precoce que me impactou. E sim a intensidade de sua vida. É a vida de Cazuza – e não a morte – que evoca perguntas e inquietação.

Fiquei pensando sobre o que esse anti-herói teria a nos dizer nesses tempos obstinados pela saúde. Percebi que, com sua vida intensamente vivida, Cazuza questiona um valor que nos é muito caro: a duração da vida. Não é por acaso que diante de uma doença sem chances de cura as pessoas tentam esticar a vida a qualquer preço, submetendo-se a todo tipo de tratamento invasivo, doloroso e alienante. Submetem-se à imagem clássica do doente furado por agulhas, amarrado a tubos, privado de sua própria morte, por consequência privado de sua vida na última cena.

Esse é só o desfecho, na morte, de um valor que regeu a vida inteira daquela pessoa. Esticamos o comprimento da vida pela vida toda – e não apenas na doença. Não é essa a questão do momento? Proibir o fumo não é um pouco isso? Eliminar as gorduras trans não é um pouco isso? Evitar qualquer excesso não é um pouco isso?

Diante de nossa vida longa, Cazuza nos confronta com sua vida breve. O que Cazuza faz, ao nos confrontar com sua poesia contundente também na literalidade dos dias vividos, é propor um outro valor para medir a vida: não mais o comprimento da vida, mas a largura. Quando assisto ao filme de sua vida, o que vejo não é uma vida desperdiçada, mas uma vida sem um segundo desperdiçado.

Cazuza aponta seu dedo atrevido para a nossa vida condenada não pela doença, mas pela saúde. Para a nossa vida que não bebe, não fuma, corre quilômetros numa esteira sem chegar a lugar algum, não come feijoada nem churrasco por causa do colesterol, dorme pouco e trabalha a maior parte do tempo em que está acordado para poder comprar todos aqueles artigos de consumo que supostamente vão tapar o buraco existencial deixado por essa vida sem vida.

A vida que nossa sociedade propõe como um valor é uma vida com saúde. E com uma compreensão do que é saúde determinada por contingências históricas – e mercadológicas. Mas pagamos caro por essa vida que nos prometem longa. Talvez seja uma longa vida sem vida mesmo antes da doença e da morte. E aí, sim, diante da doença e da morte é preciso, de novo, espichar a vida a qualquer preço porque não fomos capazes de alargar a vida quando tínhamos saúde.

E com isso não estou defendendo que tenhamos todos de nos matar de overdose numa grande orgia sexual. Muito menos fumar até aparecer um câncer no pulmão. O conceito de intensidade só pode ser dado por cada um de nós. Como vivemos nossa vida – ou nossa morte – é livre arbítrio. Apenas, talvez, podemos parar para pensar com qual medida queremos viver a nossa vida desde já. O comprimento ou a largura?

Eliane Brum, na Época.

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