O chute de trivela em três lições

Caro leitor, antes que eu continue, é preciso que façamos um trato. Você não mostrará essa crônica a mulher nenhuma. As coisas estão bem como estão e caso o presente texto caia em mãos erradas, estamos fritos. (Razão pela qual coloquei esse título, que não tem nada a ver com o assunto doravante tratado e visa exclusivamente a despistar o interesse feminino). Tudo certo? Então vamos lá.

As mulheres não são loucas. Nem imprevisíveis. Ou melhor, são sim, mas só na medida em que o ser humano é louco e imprevisível. Essas acusações são uma tática que criamos em séculos de hegemonia masculina para pôr fim às discussões antes que comece o jogo do Corinthians.“Ela é maluca!”, dizia meu amigo, indignado. “Brigou comigo só porque eu fiquei no bar até quatro da manhã!”. Na boa, ela pode ser chata, mas não louca. Muitas mulheres são chatas. (Muitos homens também, mas isso é tema para outra crônica).

Quer coisa mais óbvia? Você fica no bar até tarde, ela briga. Mulheres são previsíveis. (Você fez uma promessa lá em cima, lembra?). Nós sabemos bem o que elas querem e sabemos melhor ainda o que não querem. Acontece que às vezes queremos o que elas não querem: ir ao estádio no dia do aniversário de namoro, ficar no bar até mais tarde, deixar um scrap engraçadinho no Orkut da ex-namorada. Aí elas brigam e nos saímos com essa: loucas!

Claro que, para que possamos acusá-las assim, na hora do vamos ver, é preciso mantê-las sob uma aura permanente de mistério. Quantas matérias em revistas ou programas de TV você já não viu com a pergunta: “o que as mulheres fazem juntas no banheiro?”. Me diga, companheiro, você realmente acha que elas façam qualquer coisa de extraordinário? Que arranquem as roupas e lambam-se famintas, em delirantes sabás sanitários? Que nada. Elas fazem xixi, retocam a maquiagem, falam mal da Ju, da Má, da Re, depois comentam que o Rô é gatinho, que o Fê tem mau hálito e voltam pra mesa, como se nada tivesse acontecido – o que faz todo sentido, uma vez que nada aconteceu.

Suspeito que haja ainda uma segunda razão para que as transformemos nessas figuras desequilibradas. É a nossa necessidade de fingir que temos algum equilíbrio. Que estamos no controle. Por isso penduramos quadros, arrumamos o porta malas com esmero, fingimos que sabemos exatamente onde estamos indo e não pedimos informação, jamais!, mesmo estando perdidos.

Mesmo assim, não nos iludimos. Por mais que nos esforcemos, sabemos que a vida continua sem sentido e que a gente não controla quase nada. Nem as mulheres, mas isso tudo bem, afinal elas são completamente loucas.

Antonio Prata, na revista da marca Los Dos.

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