Chinfronésias sem asas

A ira da patroa é muito pior que a indignação de milhões de brasileiros, informam, conjugados, o silêncio de deputados ou senadores pendurados na bandeira da ética e o berreiro de meliantes notórios. Todos esconderam da matriz viagens em companhia da filial, sob o gentil patrocínio do Congresso. Como explicar-se em casa depois da divulgação da lista com os nomes das acompanhantes? Como livrar-se da tempestade doméstica desencadeada pela identificação da passageira na p;oltrona ao lado?

É bom que a turma toda encontre desculpas, pretextos e álibis até domingo. A partir de segunda-feira, uma picante sequência de revelações fortalecerá a suspeita de que o mandato parlamentar é afrodisíaco. Alguns viajantes foram fotografados no momento do embarque. Muitos casais oficiosos aparecem sorrindo longe do Brasil e supostamente do perigo, emoldurados por paisagens de cartão postal, felizes com a lua-de-mel internacional.

O site Congresso em Foco constatou que, entre janeiro de 2007 e outubro de 2008, a Câmara dos Deputados bancou 1881 viagens ao Exterior. O ranking das cidades preferidas é encabeçado por Miami (315 passagens aéreas), Paris (172) e Buenos Aires (148). Não são poucas as mulheres de deputados que nunca fizeram escalas nesse circuito romântico. Caso não se convençam de que é tudo invenção da imprensa, sempre maquinando o fechamento do Congresso, vem aí a Grande Guerra Conjugal.

Os pecadores a serviço da pátria só saberão na próxima eleição se perderam votos com a farra aérea. Mas já na próxima semana vão perder o sono. E o sossego.

Augusto Nunes, de volta à Veja.

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