Sebastianismo ao contrário

“Toda unanimidade é burra.”
Nelson Rodrigues

Até que ponto o Brasil está tão mal quanto nos querem fazer crer os seus (muitos) críticos?

Hoje – o dia em que escrevo esta coluna – vinha ouvindo, pelo rádio do carro, a crônica diária desse talentosíssimo cineasta-tornado-jornalista, Arnaldo Jabor, descascando tanta coisa errada e absurda que está acontecendo em toda parte, no nosso país, que me fazia contemplar a idéia (confesso que recorrente) de enforcar-me no chuveiro.

O foco da pancadaria é o governo. Nosso presidente é um desastre de proporções internacionais. Seus ministros preferem fazer política a administrar o país. As casas do parlamento – Câmara e Senado – estão povoadas por delinqüentes, aproveitadores e escroques de todos os formatos e matizes, independentemente das filiações partidárias – e dos seus milhares de apaniguados, protegidos e parentes, que se dedicam a exaurir os cofres públicos do suado dinheiro dos nossos impostos.

O poder judiciário é formado por uma malta de burocratas venais e preguiçosos, que passam todo o tempo articulando novas maldades, para preservar proventos e privilégios. As autoridades policiais fazem do terror e da violência profissão, quando não são – elas próprias – extensões do crime organizado. E, do poder central – encastelado na ilha da fantasia chamada Brasília – espalham-se, em cascata, pelos 27 estados da federação e seus 5.561 municípios a inépcia, a corrupção, a incúria e o desmazelo.

O crime campeia nas cidades; o coronelismo e o latifúndio imperam nos sertões; a doença e a miséria seguem ceifando vidas; o tráfico de drogas domina as favelas; as favelas ameaçam a paz da burguesia; o trânsito paralisa a economia; os acidentes rodoviários matam mais do que as guerras, etc. etc. etc. Você leu isso nos jornais de hoje – e nos de ontem e anteontem – e tem certeza de que é o que lerá (e verá na TV e ouvirá no rádio) amanhã e na semana que vem e nas semanas seguintes. Mas, sobretudo, quem é o culpado por tudo isso? Se V. respondeu “o governo” provavelmente estará alinhado com a maioria da população brasileira.

Mas será que a maioria tem sempre razão? Ou será exatamente o contrário? (veja citação na abertura).

Não pretendo ser Poliana, mas começo a desconfiar que a nova unanimidade negativa que toma conta do país tem a ver com uma herança lusa incômoda, que ainda nos atormenta: o sebastianismo. Na versão original ele consistia em esperar a solução de todos os problemas pela aparição e ação de um salvador – que, durante séculos, foi o rei, o imperador, o presidente, ou seja, o governo – em qualquer de suas formas. Agora as autoridades são a fonte de todos os males, o bode expiatório que nos paralisa e impede de pensar criativamente e – eventualmente – de descobrir que as coisas só mudam, realmente, na medida do que cada um de nós for capaz de fazer para mudá-las. Xingar o governo tornou-se uma forma inversa do velho sebastianismo – talvez igualmente inútil…

J. Roberto Whitaker Penteado, no Propaganda & Marketing.

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