O primeiro Polar a gente nunca esquece

Quem teve aulas de educação física antes da queda do muro de Berlim certamente se lembra de fazer polichinelos. O mundo era mesmo outro: davam-se ovos às crianças, fumava-se dentro dos ônibus, ninguém usava protetor solar e, antes do futebol, do vôlei ou do basquete, ficávamos dando aqueles pulos ridículos, abrindo e fechando braços e pernas no ar, como se estivéssemos num porto a nos despedir de parentes num navio distante.

É de se imaginar que alguém dessa geração, que cresceu praticando formas medievais de aquecimento (imagina só o que aqueles pulos de pernas abertas e esticadas não eram para as articulações dos joelhos e tornozelos?!) só podia olhar com desconfiança para um medidor de freqüência cardíaca. Eu achava que era muita frescura ter que consultar um relógio para descobrir se estava cansado, coisa de gente neurótica, que analisava a tabela nutricional antes de comprar um pote de iogurte.Acontece que quem teve aulas de educação física antes da queda do muro de Berlim já não é mais uma criança, e uma das vantagens da maturidade é que ficamos mais tolerantes com nós mesmos, admitimos algumas frescuras e aceitarmos nossas neuroses, de modo que, não muito tempo depois de começar a analisar a tabela nutricional dos potes de iogurte, comprei um Polar pela internet.

Não sou o tipo de pessoa que lê manuais de instrução, mas em bula de remédio vou até o fim (pulo só “gravidez e lactação”), e o manual do Polar é um meio termo entre os dois gêneros literários. O medidor de frequência é uma espécie de videogame de nós mesmos, um joguinho com nosso corpo, no qual temos apenas uma vida para gastar e, portanto, não é bom vacilar.
Programei-o com esmero. Pus ali idade, altura, peso. Resisti à tentação de me dar uns dois centímetros a mais, ou uns três quilos a menos – mentir para o próprio Polar é o cúmulo da mitomania – e, depois de alguns minutos, apertei o botão maior, esperando para ver o que ele fazia com meus dados.

Comecei a correr aos vinte anos, quando parei de fumar e passei a comer bolo de rolo de doce de leite com Häagen Daaz de doce de leite e, por cima de tudo, doce de leite. Não corro muito, umas três vezes por semana, quarenta minutos, uma hora. Meu máximo foi uma São Silvestre — coisa que não causa grande efeito entre os entendidos, mas me rende algum prestígio em festas e bares da Vila Madalena. Tendo passado de sedentário à corredor, contudo, sinto-me um grande atleta. Ou sentia-me, antes do Polar…

A tela piscou e começou a surgir uma palavra, da esquerda para a direita. Fiquei excitado. Não era só o diagnóstico do computador sobre minha forma física, mas a primeira comunicação daquele ser que eu acabara de ensinar a falar, e que a partir de então iria comigo de cima para baixo, amarrado ao peito e ao punho. E o que foi que ele disse, o ingrato? “Overweight… Overwieght… Overweight…”. Gordo! Gordo! Gordo!, era o que passava na telinha.

Tá certo, tá certo. Não adianta querer se enganar. Pelo menos, não com um Polar no pulso. O jeito é correr mais e comer menos. Agora que escrevo para a Runners, tenho não só uma desculpa, mas a obrigação de fazer com que esse medidor de frequência engula seus impropérios. Ele vai ver só. Essa barriga ainda vai ser coisa do passado, assim como os cigarros, os ovos, os polichinelos e o muro de Berlim.

Antonio Prata, na revista Runners.

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