Quem divide a conta não divide a vida

Não conheço apaixonado avarento.

Não combina, não tem sentido.

Apaixonado não cobra recibo, não solicita nota. Cultiva as férias em horário de trabalho. Empenha o 13º em abril. Compra roupas, presentes, perfumes. Está sempre com uma sacolinha a tiracolo. Patético, aniversaria com meses de antecedência.

O apaixonado é um perdulário inato. Gastará o que não recebeu, enganará o limite de uma conta com a outra, jogará alto blefando ou com mão boa.

Ele não seduz, pede falência.

Quando está amando nenhum homem enriquece. Não há como guardar qualquer coisa procurando agradar uma mulher e a si. Ele esconde o que não tem para poder mais. Sua desinformação é taquicardia. Chama da adega o vinho mais caro, não brigará com garçom pelo erro da conta, será simpático com o arredondamento dos preços. Dá gorjeta para mendigo que guardou sua sombra. Esquece de tirar o extrato bancário por semanas (Desconfie: se algum apaixonado tira o extrato está fingindo).

Cada vez mais me reconheço como um retrógrado. Pode me chamar de qualquer coisa, menos de transgressor, que não combina com a minha barba grisalha aos 36 anos. Sou um vetusto. Velho é pouco para minha intransigência.

A companhia feminina não pagará a conta. Inegociável. Meu pai, meu avô, meu bisavô dentro de mim me empurram a abrir a carteira e deixar de frescura.

Mesmo não tendo sido convidado, sou eu que pago. Machismo, mas machismo com ternura.

É nada sedutor quando um homem estabelece a partilha na calculadora do celular. Cobra inclusive os centavos de sua parceira. É quebrar mais do que os números. É antecipar o divórcio antes do juiz.

Já escuto você se defendendo: estou duro, o que faço? Ora, fica em casa.

Vexame é depender de favor. Melhor faltar crédito no banco do que com ela. Melhor um título protestado do que a própria masculinidade. No amor, a mentira é a primeira verdade. Crio um fiador na hora, solto um cheque voador e depois encontro um jeito dele pousar na plantação de joio.

Em restaurante paulista, no momento de abrir a tabuleta, amigo rascunhou a soma e reivindicou a metade exata para sua namorada. Ela não tinha, ele completou. Ufa!, suspirei, até que ouvi:

– Amanhã você me devolve trinta reais e cinqüenta centavos.

Como transar romanticamente depois das taxas? Como namorar e flertar após recriminação do orçamento?

Quem divide a conta não divide a vida. Algo será cobrado no dia seguinte. A desconfiança tem juros.

Homem descobriu no avanço dos hábitos uma forma de prosperar sua avareza. Estou fora do feminismo de fachada. Um feminismo barbudo.

Fabrício Carpinejar
arte: David Hockney

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