Mãe, a rainha do lar?

Minha mãe nunca acreditou muito nisso, de que era a rainha do lar, como apregoava a propaganda do rádio e aquela música melosa, autoria de David Nasser e Herivelto Martins, cantada pela Ângela Maria e João Dias nos anos 50/60.

Não, a “rainha” tinha que pagar no batente também fora do lar, para ajudar a manter o próprio, uma vez que a vida era dura e a grana do pai, curta.

Portanto ela conheceu logo cedo o que era a tal da dupla jornada de trabalho. Quer dizer, tripla jornada, porque tinha ainda que cuidar de mim, que dava um trabalhão…

Mas isso é coisa de antigamente, e hoje esse papo de rainha do lar não pega mais, porque a mulherada, graças a Deus e a elas mesmas, não se deixam enganar tanto e querem mais é celular.

Desculpe, mas parece que o que mais uma mulher-mãe quer na vida é um celular! Pelo menos é o que dá a entender a tamanha quantidade de propaganda de celulares que invade a mídia todo santo dia das mães…

Diz a lenda que o dia das mães (assim em minúsculas, por favor.) surgiu em 1905 por obra de duas moças do interior dos EUA que queriam estreitar os laços familiares estabelecendo uma data em que os filhos homenageassem as mães. No Brasil, a data teria sido comemorada pela primeira vez no Rio Grande do Sul em 1918 e, em 1932, tornou-se oficial e feriado por obra também de um gaúcho, o então presidente Getúlio Vargas, sabidamente um populista não que ele estivesse preocupado com os votos das mães, porque em 1937 estabeleceu uma ditadura e, pronto: ficou no poder oito anos direto, sem eleição.

Bem, mas o dia das mães tem lá sua utilidade. Na maioria das casas serve talvez para a mulher trabalhar um pouco mais, preparando o almoço do…dia das mães.

Mas claro que há resquícios de afeto ou verdadeiras manifestações de carinho, homenagens, afagos e muitos presentes, o que faz da data a segunda mais importante para o comércio, depois do Natal, outra homenagem que também serve para vender coisas em geral.

Não que o dia das mães não tenha outras finalidades: serve para dar uma saudade danada da mãe que já se foi. Também serve, nestes casos e em momentos de reflexão, para se procurar e encontrar no fundo da alma os valores que a mãe, qualquer mãe, nos impregna e os quais carregamos para o resto da vida – em alguns casos gastando muitas sessões de terapia para entender isso direito.

Mas, como eu já disse aqui, relacionando outros predicados dessas senhoras cada vez mais jovens, mãe é mãe e merece, sim, ser lembrada. Eu, por exemplo, lembro da minha todos os dias e gostaria muito muito poder encontrá-la no domingo, ainda que uma única vez, e nem que fosse para dar um celular de presente…

Luiz Caversan, na Folha Online.
dica do Francisco Salerno Neto

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