Em que o Brabo realmente realmente acredita

Era inevitável.

Além das perplexidades que eu esperava e que naturalmente aprovo (o que o Brabo realmente acredita sobre MPB, sobre colocar passas na farofa, sobre a lagartixa do pantanal matogrossense, sobre abdução extraterrestre, sobre gente que mexe o cafezinho com a pazinha de plástico e fica lambendo a pazinha, gente que não pode passar por um estabelecimento envidraçado que fica se olhando como num espelho, cachorro do vizinho que não para de latir, vizinho, adiantar o relógio pra se enganar que está atrasado, gente que lê a sinopse antes de comprar o livro, sinopse, dentista que enche a boca da gente de ferrinhos e fica perguntando coisas, mocinhas de telemarketing, mocinhas, telemarketing, pronunciamento do presidente em cadeia nacional, Baby Consuelo, cerveja quente com gelo, discurso de miss universo, o rumo do voo da borboleta, primeiro de abril, quem fala de si mesmo na terceira pessoa) e das incursões dos que aproveitaram a brecha para fazer perguntas genéricas que quero um dia chegar a responder (”O que o Brabo realmente acredita acerca da produção de um bom texto?”, “O que o Brabo realmente acredita sobre livros evangélicos?”, “O que o Brabo pensa sobre amizade?”), encontrei dois tipos de reações à minha provocação Em que o Brabo realmente acredita: perguntas sobre teologia e perguntas sobre moralidade.

As questões sobre teologia foram, mais ou menos como eu esperava, as mais numerosas. É evidente que, devidamente injuriado e deliciado diante delas, não moverei um dedo para respondê-las. Fique claro que não quero que nada fique claro a respeito da minha posição sobre esses assuntos, e permanecendo assim será melhor para mim e para você.

Mas foram as questões sobre ética e moralidade que me pegaram desprevenido. Por alguma razão, eu não esperava ouvir gente perguntando minha opinião sobre o que é certo e errado; gente perguntando o que o Brabo realmente acredita sobre – digamos – inadimplência, amor livre, adultério, sexo antes do casamento e sexo depois do divórcio.

Em retrospecto eu deveria ter sido mais esperto e antecipado essas intervenções. Bastaria ter em mente os evangelhos para lembrar que as perguntas sobre moralidade envolvem sempre uma armadilha – e não é infrequente que a armadilha não esteja armada para quem está sendo interrogado, mas para quem está fazendo a pergunta.

Quem se levanta para fazer uma pergunta sobre ética está, ainda mais do que quem faz uma pergunta sobre ortodoxia, procurando alguma medida de legitimação. Você pode estar buscando a certeza de que minha posição sobre sexo é devidamente liberal como você esperava – para, diante dessa confirmação, celebrar comigo ou autorizadamente condenar-me em círculos mais conservadores. Paradoxalmente, pode estar buscando o contrário, confirmar sua suspeita de que o vanguardismo da minha teologia não tem verdadeira correspondência na minha postura sobre questões morais, que você toma por conservadora.

De uma forma ou de outra, é a delimitação do que é permitido e do que é proibido que acaba produzindo conforto – seja na confirmação da tolerância, na confirmação da severidade ou na condenação de ambas. O conforto está nos contrastes: o Brabo pensa como eu contra eles, ou o Brabo não pensa como nós.

Se sua pergunta não envolveu uma armadilha mais ou menos deliberada dessa natureza, isto é, se você fez ao Brabo uma pergunta sobre moralidade porque quer nortear a sua própria postura moral a partir da resposta, tantíssimo pior. Nessa caso a armadilha está pronta para você, e não para mim, e você precisa de mais ajuda do que qualquer resposta pode dar.

A maravilha está em que essas perguntas sobre moralidade não me esquivarei a responder, e ofereço para todas uma mesma resposta.CADA
UM
FAZ
O QUE
QUER
Não tenho vocação para pioneiro no sentido iluminado por Bernard Shaw; não espere testemunhar-me permitindo o que era proibido ou proibindo o que era permitido. Não me disponho a fornecer a ninguém esse conforto.

À questão “o que o Brabo pensa sobre [determinada questão moral]“, minha resposta permanecerá necessariamente uma só: cada um faz o que quer.

Faço questão de repetir: cada um faz o que quer.

Não preciso lembrar que não digo “cada um deve fazer o que quer”, e digo menos ainda que não deveria fazer. Trata-se de austera constatação, e não de confortante recomendação.

Cada um faz o que quer: é nisso que o Brabo realmente realmente acredita sobre questões morais. Como bem observou um perplexo Sabbatai Sevi, a verdadeira vertigem deste universo não que está em que haja bem ou mal, certo ou errado, perverso ou bem-intencionado, mas em que o proibido seja, em última instância, permitido.

Acredito que o universo moral esteja construído dessa forma singular, ao redor dessa reviravolta e dessa vertigem, cujo emblema original está na narrativa da queda em Gênesis. No universo moral o horizonte é também o limite, o acelerador é também o freio. Dependendo da sua constituição, da sua fibra e da sua inclinação, essa mesma verdade – cada um faz o que quer – soará para você como severa advertência ou como carta branca, como irresistível convite à permissividade ou como eloquente apelo à responsabilidade.

No vocabulário da Bíblia isso está expresso em códigos com os quais aprendemos a conviver, coisas como “cada um prestará contas de si mesmo a Deus” e “não façam aos outros o que não querem que façam a vocês” e “tudo é puro para os que são puros” e “por que vocês não decidem por vocês mesmos o que é certo?”. Numa terrível palavra, cada um faz o que quer.

O modo como você reage a essa realidade diz muito mais sobre você do que sobre Deus, sobre a moralidade ou sobre o universo.

Mas passas na farofa é totalmente inadmissível.

Paulo Brabo, no site A bacia das almas

p/ entender melhor leia Em que o Brabo realmente acredita.

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