Com o pão debaixo do braço

É tanta onda com essa tal de “crise do macho” -mote de peças, colóquio chique e cafés filosóficos em São Paulo- que este anacrônico que vos bafeja o cangote resolveu lembrar algumas atitudes e costumes capazes de reorientar esta criatura que se julga perdida no milharal da existência.

Nada devolve mais a macheza perdida como retornar para casa no começo da noite com aquele clássico pacote de pães debaixo do braço. É nessa hora que um homem se faz homem de verdade e consolida a admiração da cria da sua costela, dos rebentos, da mulher do vizinho etc.

Essa dica é o consenso da Chapada do Araripe, reserva de pterossauros e berço dos varões da família deste cronista.

Não importa se é a patroa a nova provedora do lar. Deixe ela, toda poderosa e orgulhosa da nova posição social, pagar a escola das crianças, completar o tanque do carro, encher a geladeira, abastecer a despensa e até saldar aquele “pindura” no botequim da esquina.

Nada disso envergonha um macho.

Só não abra mão do direito sagrado dos homens de boa vontade: voltar para casa no começo da noite com o dito saco de pães debaixo do braço.

Limpe, amigo, na boa o cocô-abacate do pimpolho, chore com a cebola cortada, desenvolva os dotes culinários e de corte e costura, passe a cera no piso, dê o brilho, rale a barriga no tanque, rale.

Pouco importa se é ela quem manda mesmo, pouco importa se só lhe resta, tempos modernos, dizer “sim, minha senhora”, “xô, galinha” e “pra dentro, menino”.

Só não deixe escapar, amigo, a oportunidade do eterno retorno com o pão nosso de cada dia a caminho do lar doce lar. Não, amigo, não deixe essa responsabilidade com a empregada, a funcionária, não é a mesma coisa. Toma tenência, se liga na simbologia do universo.

Pouco importa se a digníssima, toda executiva, toda trabalhada no azul do seu tailleur, já passou com o carrão na boutique de pães –é assim que chama a gente de bem- e trouxe baguetes e ciabatas para o jantar.

Ainda assim, não se deixe impressionar pela modernidade e submissão. É importante a imagem pública e o cumprimento do protocolo caseiro. Mesmo que esteja aposentado, finja que precisa ir às ruas e volte com o embrulho debaixo do sovaco. É um ritual espartano, é a prerrogativa zero zero um de um homem que honra suas calças.

Falar em calças, amigo, mesmo que já não tenha mais tanta utilidade assim debaixo daquele teto –até para apertar as costas, ela tem um japonês profissa!- evite o processo de pijamização. Um homem o dia inteiro em pijamas perde de vez o respeito. Fuja também dos moletons, vista-se com a decência do velho tergal vincado de sempre, fale alto nas esquinas, compre boiadas, lembre histórias da fazenda imaginária em Goiás ou Minas, movimente fortunas, mas reserve sempre umas patacas, umas moedas, para uma meia dúzia de pães a caminho de casa.

Xico Sá, no
Blônicas.

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