Só os mortos são velhos

Eu pagaria para um amigo fazer churrasco.

Solidão é não ter mais amigo para fazer churrasco.

Comer picanha na tábua, atravessar a insônia empilhando cascos, brincar com histórias antigas. Ficar até tarde, até cansar de tanto rir, até lavar os espetos com bombril.

É um exagero diplomático organizar uma carne que já extravio a vontade. Converteu-se em cerimonial do Piratini.

Não é disso que desejava desabafar. Apesar de entender que a solidão apressa a velhice.

Nossa família começou a sair mais para restaurante do que almoçar na própria cozinha. No último domingo, no dia das mães, cometi uma gafe numa galeteria de Porto Alegre. Família reunida, papo inconseqüente, naquele revezamento sadio de gozação entre os conhecidos, escuto que a Sueli, vizinha do bairro, pediatra aposentada, namorava um militar.

Deu a louca de me assustar com a fofoca e partir para agressividade. A mais grave violência é que usa a intimidade para bater. Espanquei a porta como se fosse uma janela.

“A Sueli? Ela é um caco, tem 70 anos!”

Todos na mesa permaneceram graves, fúnebres. Não, a Sueli não estava ao lado chupando ossinho.

Minha mãe completa 70 anos em maio e não reparei seu desalento. Os filhos não reparam que a mãe envelhece.

Quando criança, acreditava que 50 anos era velho. Matusalém.

Óbvio, meus pais residiam na casa dos 30. Não mudei o prognóstico porque continuo enxergando quem eu amo de um jeito infantil. Conservados no formol da nostalgia.

Daí identifico que meus grandes colegas entraram na faixa dos cinqüenta anos: Mário Corso, Cíntia Moscovich…E ainda são jovens. Digo jovens para perdoá-los ou para me perdoar por estar envelhecendo junto?

Não sei. Assim como não noto a idade dos confidentes, tampouco assumo a minha. Os rostos ficam sobrepostos. Ao conhecer um amigo jovem, sempre atravesso sua fisionomia para redescobrir a expressão da primeira vez que o vi.

Tento me adaptar grosseiramente para não sujar a vaidade. Sofro tortura das crianças. Vicente comentou que não quer que eu chegue aos 60, que estou aniversariando muito rápido. Com uma ternura contrariada, explicou: “Se gostar de envelhecer e morrer”.

Busquei remendar a observação. Chamar de velha é entendido como preconceito, é decretar o fim amoroso, é enterrar a mulher de chambre e pantufa na cama.

– Desculpa, Sueli não está velha, só é velho quem tem 90 anos.

Tenho unicamente a barba de Nostradamus; agravei o luto. Menti, não confio na longevidade dos 90 anos. 90 anos não é velho para mim, é morto. Só os mortos são velhos hoje em dia.

Por que chamar de velho é ofender? A nona se aninhava de passamentos e não me amaldiçoava em suas rezas antes de dormir.

Cansa pensar demais. Minha mãe está lindamente velha. Estou lindamente velho. Meus amigos estão lindamente velhos. Há um asilo em mim substituindo o pátio. Há um jogo de cartas arredando o futebol na garagem.

E Sueli também é velha. Não vou apelar para terceira idade, melhor idade: velha! O eufemismo não nos amadurece, apodrecemos nele.

Tanto que não peço para a mãe descansar nos seus momentos de indisposição. Aviso que ela deve repousar. Repousar é a expressão que o filho unicamente emprega quando a mãe requer cuidados.

Alguém precisa ter coragem e envelhecer neste mundo.

Fabrício Carpinejar

arte: Manet
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