O direito ao corpo

PARA provar uma ideia que todos consideravam louca, ele atravessou o oceano Pacífico, do Peru até a Polinésia, numa balsa semelhante àquelas que são usadas ainda hoje no lago Titicaca.

A tecnologia usada na construção da balsa tinha de ser aquela disponível em tempos pré-colombianos, pois a ideia louca que Thor Heyerdahl queria provar era que era possível que, em tempos imemoriais, os homens tivessem migrado pelo Pacífico usando os recursos de que dispunham.

Essa aventura fantástica tomou o nome de expedição Kon-Tiki, partiu da costa do Peru no dia 28 de abril de 1947 e chegou à ilha Raroia 101 dias depois, tendo navegado 4.300 milhas.

Aos 84 anos, quando estava com sua família gozando férias em sua casa na Itália, Thor Heyerdahl foi diagnosticado como tendo um tumor cerebral. Ele parou de comer e de tomar remédios até partir em sua última expedição pelo Grande Mar desconhecido…

Era comum que os médicos de antigamente tivessem, na sala de espera de seus consultórios, a tela de Samuel Luke Fildes “O Médico”. Lembro-me de tê-la visto pela primeira vez num consultório, enquanto esperava que o médico me atendesse. A tela me impressionou tanto que eu, menino de sete anos, sai da poltrona onde estava assentado e me aproximei da tela para ver os seus detalhes. Nunca esqueci. Cheguei a escrever um texto sobre ela. Ela representa a fantasia romântica do médico de antigamente que, com armas frágeis, lutava sozinho contra a morte.

Ele vivia fora do tempo. Era um médico de antigamente. Com sua velha maleta, ia pelos bairros da periferia de Campinas para atender os pobres. Meu afeto por ele cresceu quando vi, na sua casa, uma reprodução de “O Médico”.

Já bem velho, com câncer, consultando seu corpo e sua alma, concluiu que não fazia sentido lutar uma batalha perdida. O certo seria que vida e morte seguissem seu caminho. Parou de comer e de tomar remédios. E foi assim que ele partiu…

Esses dois casos me vieram à mente quando, provocada por circunstâncias, minha imaginação pensou a terrível possibilidade de um AVC que me condenasse a uma vida sem sentido, sem saídas, humilhante, um peso para as pessoas que me amam e impotente, vida que se resumiria numa espera do fim.Eu deixaria de ser dono do meu próprio corpo e não teria mais o poder para tomar as providências para a aventura pelo Grande Mar desconhecido…

Lembro-me de uma paciente que me contou que o seu pai, homem religioso que rezava diariamente, começou a rezar o Pai Nosso de uma maneira diferente: passou a omitir a súplica “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Do jeito dele, ele também tomou a decisão…Tenho estado pensando nas pessoas que, por sua condição física de dor ou humilhação, prefeririam que a morte tomasse a vida no seu colo e a fizesse dormir. O desejo de morrer é uma oração, um suspiro da vida que deseja voar.

Acho que Bach concordaria comigo. Foi para esses que suspiram e desejam voar, ele mesmo inclusive, que ele compôs o seu comovente coral “Vem doce morte”. Ouvindo esse coral, a partida fica triste, bela e calma…

Agora me pergunto, eu gostaria de saber: se Thor Heyerdahl e esse médico anônimo de Campinas estivessem num hospital, ser-lhes-ia permitido bater suas asas?

Rubem Alves, na Folha de S. Paulo.

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