As borboletas escapam das gravatas

O garçom não sorria por gentileza. Pela obrigação de receber e servir.

Um riso aberto que existia antes de mim. Talvez antes dele.

Vou detalhar melhor meu espanto.

Não ostentava um riso de Rivotril. Um riso anestésico. Um riso de maçaneta, de tabuleta abrindo o expediente.

Ele se aproximou e entregou a carta, sutil, estendendo uma segunda toalha de renda.

Ficou perto sem ser insistente. Próximo para ouvir.

Seu riso me turvou, não alcançava o motivo, algo errado, sei lá, quebrou a expectativa. Fui rude em seguida, precipitado pelo desconforto.

– Está rindo de quê?

(Escapou, eu sugeria um paranóico puxando briga)

Não revidou o tranco. Com paz tibetana; as mãos no bolso acentuando o temperamento inofensivo; transformou a grosseria em curiosidade.

– Sou assim há 27 anos trabalhando aqui…

Assim como? Era o primeiro garçom feliz de minha vida. O primeiro realmente feliz.

Ao entrar no restaurante Augusto, de Santa Maria, esperava encontrar galeto banhado de tempero. Não imaginava enxergar essa aberração: um garçom feliz.

Os garçons são na maioria afobados, casmurros, ocupados em demasia para mostrar as obturações, carregando andares de porcelana da cozinha para a sala, abrindo portas, recolhendo pratos, decorando extravagâncias (copo com gelo, copo com gelo e limão….carne bem passada, no ponto, malpassada). Ele, não. Longe de possuir um rosto contrariado, de quem fazia um favor em atender, de quem seria obrigado a interromper seu trajeto, perder tempo e ceder informações irrelevantes. Não se apresentou sádico, fingindo linha reta para não reparar os braços afogados dos clientes. Andava, aliás, compenetrado, observando os dois lados como se houvessem ruas entre as mesas. Destoava da patrulha de gravata borboleta ou uniforme branco e preto que desfila com a cabeça ereta de manequim, com o poder de nos torturar de sede e fome.

Os garçons são fechados, rápidos, exibidos nos malabarismos das bandejas, recebendo ordens na cozinha e sufocando a raiva para conversar com os clientes. Ele, não. Nem um pouco reprimido, deprimido, soberbo de cansaço.

E não era um restaurante pobre, em que os funcionários insinuam que conhecem muito menos do que a gente, onde o garçom transmite o desconforto de primeiro dia de emprego, desidratando uma mistura de nervosismo de estreia e ansiedade pelo fim do turno. Ao perguntar qualquer coisa, ele vai ler o cardápio para procurar o prato. O problema é que lê o cardápio mais do que olha.

E não era um restaurante chique, em que os atendentes nos humilham desde o uso dos talheres. Passam a sensação que sabem mais do que a gente. O prazer vira escola de bons modos e vigilância dos hábitos. Como relaxar numa mesa mais arrumada do que a casa de nossa mãe? Intuo que serei repreendido no primeiro gesto, tal cão em treinamento.

Num refinado endereço paulista, indeciso entre dois vinhos, cometi a imprudência de pedir a opinião ao garçom. Para quê?

Ele me respondeu:

– Sugiro este, mais espesso e com forte ataque aromático.

“Ataque aromático?”

Tive um bloqueio criativo. Uma parada cardíaca nas palavras. Eu me encolhi diante da namorada, eu broxei, não conseguiria falar nada dali para frente que superasse “ataque aromático”. Minha modéstia somente surge do fracasso.

Mas aquele garçom feliz do início – não culto e erudito como o de São Paulo – me irritou muito mais. Não procurava me agradar e seguir o treinamento da brigada. Alimentava uma simplicidade simpática, espontânea, própria de avô, concedida desobrigada aos netos após cumprida a responsabilidade com os filhos.

Mas me irritou profundamente, mesmo, quando descobri seu nome: Severo.

Fabrício Carpinejar
arte: Toulouse-Lautrec

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