O último suicídio

“Quem de moço não morre de velho não escapa.”
Provérbio

No mundo plano em que começamos a viver as pessoas mandaram os críticos às favas. Pernósticos, arrogantes, metidos, chatos, insuportáveis: mas era o que tinha. Agora não. Críticos nunca mais. São milhões de pessoas comuns em seus blogs e redes sociais, e nas melhores empresas de comércio eletrônico, manifestando suas opiniões sobre o livro que acabaram de comprar e ler, restaurantes, hotéis e muito mais. E para as outras pessoas comuns essa opinião é a que conta: são pessoas como eles, e, se gostaram, provavelmente também vão gostar. Assim Bernard Loiseau provavelmente foi o último dos criticados a cometer suicídio.

Bernard nasceu em janeiro de 1951 em Clemont-Ferrand, no centro da França, numa família que ganhava a vida com um pequeno comércio onde vendia frios – uma “charcuterie”. Com 16 anos empregou-se numa pastelaria, depois passou para um restaurante e converteu-se em aprendiz, durante três anos, da família Troisgros, no Hotel Moderne de Roanne.

Por alguma razão, e enquanto trabalhavam no restaurante Les Frère Troigos, os irmãos Jean e Pierre não apostavam muito no seu talento. Um dia Jean teria dito a Bernard, “Se você chegar a ser um cozinheiro de verdade eu viro um arcebispo”. Contrariando os prognósticos, e com 21 anos, já comandava a cozinha do La Barrierè de Clichy de Claude Verger.

Em 1975, convidado por Verger, foi comandar o La Côte D’Or em Saulieu, e com menos de dois anos conseguiu ganhar a primeira estrela de sua vida, e para um restaurante sob sua responsabilidade, do Guia Michelin.

Em 1980, depois de dois casamentos e 3 filhos, comprou o La Côte D’Or e recebeu a segunda estrela do Michelin. Em 1985 conseguiu a maior nota do Gaultmillau – 19,5 pontos em 20 pontos possíveis, e, finalmente, em 1991, chegou lá: três estrelas no Michelin.

Em poucos anos, toda a energia dispendida na escalada desapareceu, a qualidade dos serviços foi junto, Bernard mergulhou em profunda depressão.

Em janeiro de 2003, um colunista do Le Figaro, François Simon, publicou uma pequena nota sobre um possível rebaixamento do La Côte D’Or no Michelin, assim como no Gaultmillau. No dia 24 de fevereiro de 2003, aos 52 anos, com um tiro na cabeça, Bernard encerrou sua carreira e sua vida.

O Côte D’Or não perdeu nenhuma de suas 3 estrelas nem foi rebaixado no Gaultmillau. A notícia não tinha fundamento.

Rudolph Chelminski, amigo de Loiseau, escreveu sua biografia – O Perfeccionista, editora Record. Entrevistado pela Folha, e falando sobre a cena no suicídio, disse, “François Simon é provavelmente o melhor crítico francês de restaurantes e também um dos que escreve mais habilmente sobre o assunto. Eu o admiro. Jornalisticamente, penso que errou ao publicar o boato que Bernard ia perder sua terceira estrela no Michelin. De verdade era boato, mas representou terrível e insuportável humilhação para Bernard…”.

No mundo plano ninguém mais cometerá suicídio pelas palavras e humor de um único crítico. Agora, e finalmente, os críticos somos nós. Melhores, autênticos e de bem com a vida.

Francisco A. Madia, no Propaganda & Marketing.

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