O pó e o espelho

Vou contar uma extravagância: guardo vários estojos de pó compacto.

Desde a meninice. Não deixava minha mãe jogar fora.

Caixinhas redondas azul, preta, marrom, vermelha.

O pó da maquiagem se esfacelava, ela fazia menção de colocar no lixo e tomava para mim.

Não duvido que não tenha pensado que seria gay. Ela penava sérias preocupações com meu destino sexual. Acredito que ainda tem.

O que seu menino faria com aquilo? Estaria se pintando em segredo? Passando batom? Brincando de menina?

Lembro que me vigiava, me olhava de canto, espiava minhas gavetas, lustrava minha sombra pelos corredores.

Não roubei nenhuma peça de seu guarda-roupa, não botei nenhum sutiã para ver como se ajustaria em meu peito. Eu resgatava a base pelo simples motivo de que tinha um espelho dentro do estojo. Limpava seu conteúdo, retirava as sobras e a esponja e me banhava com o brilho esférico e prateado.

Além da possibilidade do reflexo portátil, ideal ao bolso, partia do princípio que descartar espelho daria azar. Muito mais grave do que quebrar.

Salvei minha mãe de desastres. Só não a salvei de ser minha mãe.

Homem tem atitudes suspeitas e superstições incontroláveis. Gosta de brigar por mais que desminta e alerte que não suporta discussões. A provocação é uma prova de intimidade. A gente agride apenas quem é capaz de nos perdoar.

Ao contrário do que as mulheres insistem em comentar, o homem não é linear – tentamos preservar essa reputação para não nos complicar. Não fará testes para conferir se é amado ou se é gostoso ou se transa bem ou se vem sendo correspondido, justo porque não aceita o fracasso. Colaria as respostas invertendo a página.

Ele não pergunta toda hora se ela realmente o ama, o que não significa que não é inseguro. Não cria beiço durante o desaforo por pura falta de prática, logo desliza na careta.

Os testes masculinos são de outra ordem. Daquilo que posso chamar de terrorismo psicológico.

Quando sua namorada se arruma para sair, por exemplo.

O homem fica enervando, apressando, controlando o tempo, segurando a maçaneta, não é?

A mulher demora uma hora para escolher a roupa após experimentar todas as possíveis combinações da estação outono-inverno. Coloca batom, blush, rímel, seca os cabelos, arruma as dobras do tecido, dança abraçada ao armário, deita, senta, retoma um casaco, troca a saia. E finge não ouvir seu namorado recordando do atraso.

E o homem não cansa de avisar do compromisso em poses ansiosas. De pé na sala, sentado em meia cadeira, debruçado na mesa. Bufando. Teimando. Arfando.

O exame não é esse jogo previsível de cobrança. Surge na saída, num golpe fatal da paciência.

No momento em que ela confirma que está pronta, ele – que até agora a empurrava para rua – começará a empurrar de volta ao quarto com estranhas carícias. Com beijos mais longos. Pegará a cintura dela com ardor e firmeza. Fechará a porta com os pés.

Ela não compreenderá a mudança de atitude. Poderá lamentar:

– Não estamos atrasados?

– Sim, bem atrasados, ele responderá com uma calma histérica.

A epopéia da produção será desmanchada em segundos. Com a violência implacável dos lábios e a curiosidade indiscreta das mãos.

Se ela deixar, o homem vai concluir que é o mais amado, o mais gostoso, o mais correspondido e somará os pontos a seu favor de todas as revistas femininas nas bancas daquela semana.

Não que deseje transar naquele instante, de repente nem tem vontade. É birra, carência.

Ele somente quer testar sua mulher. Homem é ambicioso no amor, diferente do que dizem por aí. Chega a ser ganancioso.

Quer que sua mulher se arrume para ele e se desarrume e se arrume outra vez. Para cobrar novamente o atraso.

O homem é o espelho no estojo. Não nos jogue fora.

Fabrício Carpinejar
arte: Rauschenberg

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