A Bíblia, a fé e os provisórios castelos de areia

Ninguém precisou me ensinar a nadar. Criado em cidades litorâneas, como Rio de Janeiro, Santos, Niterói e Fortaleza, a praia se tornou um ambiente natural em minhas descobertas. Aprendi a nadar vendo os outros nadarem e querendo muito entrar mar adentro. Foi na praia que também aprendi uma linda lição, mas estranhamente difícil para algumas crianças. A beleza dos castelos de areia é sua curtíssima duração. Castelos de areia, por mais belos que sejam e por mais tempo que neles se gaste, desmancham na primeira alta da maré. Meus primos, os que não eram do litoral como eu, gastavam enorme tempo na construção de seus castelos e se revoltavam até as lágrimas quando desmoronavam. Na época, achava-os chatos e mimados. Hoje os compreendo, mas não os absolvo.

Querer dos castelos de areia o que não podem dar é construir amarguras. É o que hoje mais me incomoda no ambiente religioso. A pretensão de posse da verdade é nosso castelo de areia. Temos o livro infalível, a doutrina fundamental, o ambiente de pessoas superiores, uma fé a toda prova, a certeza imbatível da melhor religião, a segurança de um mundo controlado pela onipotente mão divina, nada acreditamos acontecer sem um propósito superior e nos esquecemos de que toda essa construção, por mais bonita e incrementada que tenha sido um dia, é feita de palavras que são sempre como a areia à beira do mar.

Meu ofício de pastor se parece muito com minhas aventuras nas tantas praias que freqüentei na infância. Ficava inconformado com os primos do interior, caprichosos e sem graça. É assim que vejo muitos crentes quando tem que lidar com o sofrimento. Sua amargura não se deve à perda simplesmente, mas ao desmantelamento de uma segurança que não passava de um castelo de areia inutilmente tão vigiado.

A graça dos castelos de areia é que toda vez que chegamos à praia podemos construir um novo. E assim que desmoronar, podemos fazer outros ou, melhor ainda, tentar outras brincadeiras neste espaço sempre tão aberto e inventivo. Talvez devêssemos aprender com os castelos de areia em nossas construções de fé. Porque da mesma forma que os castelos da infância são feitos de areia, nossa fé é feita de palavras. Não há nada de errado com os castelos, contanto que não nos esqueçamos que são construídos com a areia solta da praia e à beira do mar. Nada de errado com nossas apaixonadas construções de fé, contanto que não nos esqueçamos de que são feitas de meras palavras, esses signos tão impotentes e transitórios, articulados à beira da incontrolável e contingente vida humana.

A Bíblia, queridas crianças, é a palavra de Deus. É verdadeira. Digna de aceitação. É edificante. E as crenças? São bonitas. Nasceram com contundência em resposta às mais variadas dúvidas. Fizeram de nós pessoas esperançosas e fiéis. Mas são feitas de palavras. Nossos conflitos de interpretação. Nossas tensões entre o que lemos e o que faz sentido na prática de todo dia. Nossa necessidade de ressignificação da fé. Nossa modéstia em propor explicações. Nosso assombro diante das tragédias. Nossa ânsia por novas respostas. Tudo isso é nossa experiência com a precariedade das palavras. A fé à beira do mundo que experimentamos novo a cada dia é como o castelo de areia e a próxima onda que ameaça desmancha-lo.

Qual a graça de se construir castelos de areia se são sempre tão provisórios? Por que ter esperança se nossas expressões de fé são tão precárias e passageiras?

A graça dos castelos é que eles não duram para sempre. E porque não duram para sempre não temos que desperdiçar tudo o mais na imensa praia para ficar tensos e vigilantes ao seu lado. E se a água fria e espumosa do mar e a vastidão da praia para correr e os outros meninos aos berros convidando para o futebol e as pranchas e bóias esperando para sangrar as divertidas ondas do mar e o homem do picolé oferecendo suas delícias frias não bastarem para nos arrancar dos castelos já construídos, a próxima onda vai livrar-nos deles e nos obrigar a sermos livres.

E as nossas expressões de fé? Também.

Elienai Jr.

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