Amor e dor

“Papai, se os passageiros [do voo AF 447] estão todos mortos, por que estão tirando os corpos do mar?” A pergunta foi feita por meu filho David, de sete anos, ao bater o olho numa das manchetes do jornal. Como eu não sabia a resposta, embrenhei-me em frenética pesquisa. As fontes ordinárias (enciclopédias, google scholar etc.) mal abordavam a questão. Decidi, então, lançar mão de um recurso extremo: fui à Amazon e, em meu Kindle, adquiri e baixei o livro “The Nature of Grief” (a natureza do luto), de John Archer, professor de psicologia da Universidade de Lancashire. Bem, vocês já podem adivinhar qual foi meu programa no fim de semana…

A pergunta de David é boa porque revela a pouca racionalidade por trás de alguns aspectos da operação de busca. Todos os nossos conhecimentos de física e medicina nos asseguram, para além de qualquer dúvida razoável, que nenhum dos ocupantes do Airbus pode ter sobrevivido à queda da aeronave. Eles estão irremediavelmente mortos. Não precisamos de cadáveres para prová-lo e, espero, nem para expedir os certificados legais necessários. Ainda assim, sempre que tragédias desse tipo acontecem, dedicamos enorme parte de nossas energias e recursos à localização, resgate e identificação dos corpos.

É verdade que o estado dos cadáveres, ao lado de partes da fuselagem, é um dos elementos a ser analisado na investigação do acidente, que tem como meta a prevenção de novos desastres –uma atitude definitivamente racional. Mas o zelo para com a recuperação dos corpos é um fenômeno que se verifica mesmo em situações em que as causas da tragédia já são conhecidas e nada há a investigar, como o 11 de Setembro.

Essa preocupação com os restos mortais pode assumir contornos surrealistas. Na última troca de “prisioneiros” entre Israel e a milícia libanesa Hizbullah, em julho do ano passado, o Estado judeu libertou cinco membros do grupo xiita e devolveu os cadáveres de 199 combatentes libaneses e palestinos como contrapartida pelo retorno dos corpos de dois soldados. Não há teoria dos jogos que justifique a racionalidade desses números. A única explicação reside no enorme peso que o Exército israelense dispensa aos restos mortais de seus homens.

E não são apenas os israelenses. É a humanidade como um todo. Não se trata de mero acaso que a Ilíada, a peça fundadora da literatura ocidental, possa ser descrita como uma história de lutos: o ciclotímico herói grego Aquiles, para vingar-se da morte de seu amigo (para alguns amante) Pátroclo, derrota em combate o troiano Heitor e lhe desfigura o corpo; tomado pelo horror diante dessa atitude, Príamo, rei de Tróia e pai de Heitor, encontra coma ajuda do deus Hermes uma forma de encontrar-se com Aquiles e, juntos, eles choram suas respectivas perdas. O épico termina na celebração de jogos fúnebres em honra a Heitor.

Homero não é um caso isolado. O luto é um tema constante na obra de Shakespeare (Hamlet, Romeu e Julieta), Dostoiévski (Irmãos Karamázov) e milhares de outros autores de diversos calibres. Leia +.

Hélio Schwartsman, na Folha Online.

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