Os pés e os calcanhares do Corpo de Cristo

Corpus Chisti é a solene festa católica de celebração ao Corpo de Cristo. Segundo a tradição católica apostólica romana, a Eucaristia é um dos sete sacramentos e foi instituído na Última Ceia de Jesus e os seus discipulos durante a Festa Judaica da Páscoa.

As palavras de Jesus “Este é o meu corpo…isto é o meu sangue…fazei isto em memória de mim” tem diferentes interpretações e seja qual for a leitura liturgica daquele fato histórico, o que importa é que estamos falando da mais importante celebração dos Cristãos.

O apóstolo João descreve com detalhes as palavras de Jesus na insituição da Ceia do Senhor, é um dos maiores e mais intimista de todos os ensinos do Mestre.

Ao meditar sobre o Corpo de Cristo eu desejo enfocar os seus pés antes, durante e após a sua ressurreição.

Na última semana de Jesus nós encontramos quatro importantes referências sobre pés humanos, a unção dos pés de Jesus por Maria em Bethania, a limpeza dos pés dos discípulos no Cenáculo, o calcanhar de Judas se levantado e os seus pés rasgados e pregados na Cruz.

Antes de ser preso e ser torturado até a morte, ao anoitecer da quinta-feira ele reserva aos seus amigos momentos cheios ternura, encorajamento e ensino e Ele começa lavando os seus pés.

Na mitologia grega, Hermes que também é o protetor dos ladrões, tinha asas nos pés; entre os hindus uma casta de seres humanos são chamados e tratados como imundos, pois são a poeira dos pés de Brahma; na mitologia nórdica, a vingativa e mal humorada deusa da caça Skadi só pode escolher o seu esposo olhando somente os pés dos pretendentes e ao ver um belo par de pés escolheu a Njord pensando ser Balder, o deus amado por todas as coisas da criação.

Ainda pensando nos pés dos deuses e figuras mitológicas, não nos esqueçamos de Édipo o menino de “pés inchados”, cujos pés simbolizam a fraqueza dos caminhantes da vida, Aquiles com o seu calcanhar só vem reforçar a simbologia de fragilidade humana que os pés trazem.

Homero afirmava que a deusa Ate tinha os pés delicados e que jamais tocavam no solo, mas andava sobre a cabeça dos homens.

Mas, no cenáculo em Jerusalém acontece uma cena em que o Deus dos cristão suja as mãos com a poeira dos pés dos seus discípulos.

Por isso que São Paulo ao escrever aos cristãos de Filipos diz que embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!

No Oriente, lavar os pés era um obséquio aos estranhos e hóspedes que estavam de viagem. E isso só era feito pelos mais simples serviçais.

Em determinado momento, enquanto os discípulos discutiam entre eles para saberem quem era o maior – quem seria o primeiro ou segundo vice do Reino – Jesus se levanta, tira a sua capa que é sinal de autoridade e com o dorso nu, amarra uma toalha na cintura, derrama água numa bacia e começa a lavar os pés dos candidatos ao poder.

A lição de serviço abnegado e de humildade está bem claro naquele momento, mas imaginem a cena, Jesus lava os pés de cada um daqueles que Ele amou até o fim e que em poucas horas, um levantaria o calcanhar traindo-o, outro o negaria e os demais sumiriam deixando-o só no seu pior momento.

Jesus sabe que os nossos pés são frágeis, se machucam e ficam empoeirados e até hoje são poucos os cristãos que entenderam o que aconteceu naquela noite.

O lava-pés é a melhor alegoria da Regra de Ouro que as maiores religiões do mundo ensinam e que Cristo deu a ela uma forma positiva: Façam aos outros aquilo que vocês querem que eles façam por vocês!

Só compreenderemos a santificação cristã quando começarmos a nos despir e curvarmos até o chão para lavar os pés dos nossos irmãos – que como os nossos – são suscetíveis às sujeiras e ferimentos da jornada da vida.

Os discípulos de Jesus não excluem niguém da mesa mandando-o tomar um banho disciplinador e penitente. (em alguns casos corrosivos e deformadores)

Os discípulos de Jesus são pessoas conscientes de que são uns “pés sujos” e devem passar a vida toda lavando os pés uns dos outros.

Infelizmente, nós somos uma geração de cristãos que ainda prefere lavar as próprias mãos nas águas da covardia permitindo crucificações a ter a coragem de sujar as mãos lavando os pés para que ninguém fique de fora da ceia, da comunhão e do legado do Senhor Jesus.

Quem vive lavando as mãos como Pilatos não tem os pés formosos, pés assim não anunciam as Boas Novas e são os novos calcanhares levantados contra o Corpo de Cristo.

As mãos mais limpas são aquelas que vivem lavando os pés dos seus irmãos e reconhecendo os seus calcanhares de Aquiles.

Levi Araújo

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