Todos querem Aldo

São 9 horas da noite de sexta-feira, 8 de maio. A Catedral Anglicana, no Alto da Boa Vista, bairro de classe média alta paulistana, está pronta para mais um casamento. Os cerca de 500 convidados dão pouca atenção às palavras do reverendo Aldo Quintão, de 46 anos. Alguns cochicham com seus vizinhos de banco, outros olham para o vazio e há ainda aqueles que se levantam para atender o celular fora da igreja. Depois de algum tempo, finalmente, o reverendo consegue despertar a curiosidade da plateia. Ele está falando algo sobre virgindade, moda e Angra dos Reis:

– A noiva escolheu a cor do vestido inspirada na Daslu? Não, minha gente. O branco é inspirado nas palavras do rei Davi, no Antigo Testamento, num momento de arrependimento: “Deus, tira de mim o meu pecado, lava-me e ficarei mais branco que a neve”. Branco, portanto, é pureza. Mas não no sentido que vocês estão pensando, essas bobagens de virgindade. Ele representa a pureza do sentimento que aproximou esses noivos há três anos e onze meses, no momento em que eles se conheceram nas praias de Angra dos Reis, e os trouxe hoje para o altar. Cada um de vocês é testemunha dessa pureza.

Agora todos ouvem o que o reverendo Aldo tem a dizer. Ao final, os noivos Tamara Melo e Leonardo Barros deixam o altar radiantes e com um presente oferecido pelo religioso durante a celebração – uma Bíblia.

Cerimônias como essa, com explicações para símbolos cristãos e associações com o dia a dia dos noivos, fizeram do reverendo Aldo o grande casamenteiro do Brasil. Só no ano passado ele celebrou 350 uniões – um aumento de 70% em relação a 2004 (veja o quadro). Tais números são tão mais impactantes pelo fato de a religião anglicana ser pouco disseminada entre os brasileiros. Dos 70 milhões de anglicanos no mundo, estima-se que 100 000, no máximo, vivam no Brasil. O anglicanismo nasceu, é claro, na Inglaterra. A fim de unir-se oficialmente àquele doce e quente pecado chamado Ana Bolena, o rei Henrique VIII (1491-1547) pediu ao papa Clemente VII para anular seu casamento com a rainha Catarina de Aragão. Pedido negado, Henrique VIII rompeu os laços com Roma, criou a Igreja da Inglaterra e declarou-se seu líder espiritual, numa tradição seguida até hoje pelos monarcas britânicos. Assim como os católicos, os anglicanos observam os sete sacramentos, acreditam em santos e na Santíssima Trindade. No entanto, seus sacerdotes não estão obrigados ao celibato, defendem o uso de contraceptivos e realizam casamentos entre divorciados. Um terço dos casamentos celebrados pelo reverendo Aldo são entre divorciados – daí, claro, a “conversão” de tantos noivos brasileiros.

Aldo, que é casado, tem um filho de 19 anos e se submeteu a uma vasectomia há dez, veio de uma família paupérrima de Taguatinga, cidade-satélite de Brasília. O branco, sempre lembrado em seus sermões, era a cor dos sacos de farinha com os quais sua mãe confeccionava a roupa dos sete filhos. Seus pais eram católicos praticantes e, na adolescência, Aldo decidiu enveredar pela vida religiosa. Dos 19 aos 24 anos, Aldo foi frade da Ordem dos Carmelitas. Desgostoso com a rigidez de Roma, ele afastou-se da vida sacerdotal e passou a ser professor de religião. Dez anos depois de largar a batina, Aldo bateu à porta dos anglicanos. Ao assumir a igreja do Alto da Boa Vista, as missas reuniam, no máximo, quarenta gatos pingados – a maioria delas celebrada em inglês. O reverendo mudou essa situação graças ao boca a boca dos frequentadores de seus casamentos. Hoje, as cerimônias de Aldo, realizadas em dois horários aos domingos, chegam a contar com 1.000 pessoas – que ouvem seus sermões em português.

Assustado com o sucesso, o reverendo teve episódios de pânico que o obrigaram a tomar ansiolíticos durante um ano. Hoje, isso é lembrado nas suas missas. “As pessoas se identificam e relaxam quando sabem que esse tipo de problema pode acometer até o padre.” É assim que Aldo estabelece laços estreitos de amizade e confiança com a maioria de seus fiéis – sejam eles ricos ou pobres, famosos ou anônimos. Em 18 de julho de 2007, um dia depois de o Airbus da TAM cair nas proximidades do Aeroporto de Congonhas, matando 199 pessoas, Maurício Amaro, herdeiro da empresa, desembarcou dos Estados Unidos e foi ao encontro do religioso. No sofá forrado de plástico, durante quarenta minutos, ele chorou, rezou e comeu bolachas com chá mate servido em copo de plástico. “Aldo me transmitiu muita espiritualidade, e eu saí de lá fortalecido”, diz Amaro.

O reverendo casamenteiro é um anglicano sem inglês. Ele chegou a passar nove meses no Canadá, a fim de aprender o idioma, mas saiu de lá igualmente monoglota. “Não importa. Aldo ajuda mais a igreja do que muitos padres que falam inglês fluentemente”, diz Julian Thomas, diretor na América do Sul da transportadora alemã Hamburg Süd e anglicano desde sempre. E como ajuda. No ano passado, ele obteve de Thomas uma doação de 200 000 reais. De Maurício Amaro, a contribuição, em 2007, foi de 1,5 milhão de reais. O destino de todas as doações é auditado pela consultoria americana PricewaterhouseCoopers, e cada doador recebe relatórios anuais com informações detalhadas sobre o dinheiro gasto nas obras assistenciais. Graças a essa rede de relacionamentos, Aldo consegue arrumar emprego todos os meses para dez pessoas, em média. Além disso, o reverendo mantém 360 crianças em três creches. A quarta, para 1 000 crianças, está prevista para ser inaugurada em 2010. O casamento de Aldo Quintão com Deus é perfeito.

fonte: Veja

seria tão interessante se a PricewaterhouseCoopers auditasse o que acontece com a grana em muitas igrejas neopentecostais…

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