Apenas a superfície

“Ao mudar de canal, Chance podia mudar a si mesmo. Podia passar por fases, como as plantas do jardim, mas podia mudar tão depressa quanto desejasse, girando o dial para trás e para frente. Em alguns casos, podia se espalhar totalmente pela tela, à semelhança das pessoas que aparecem na TV. Ao virar o dial, podia trazer os outros para dentro de suas pálpebras. Assim, começou a acreditar que a razão de sua existência era ele, Chance, e ninguém mais.”

“Enquanto não se olhava para as pessoas, elas não existiam. Começavam a existir, como na TV, quando alguém lhes dirigia o olhar. Só então permaneciam na mente desse alguém, antes de serem apagadas por novas imagens. O mesmo era verdade em relação a ele. Olhando-o, os outros poderiam iluminá-lo, expô-lo e revelá-lo; não ser visto equivalia a tornar-se indistinto e desaparecer.”

“As pessoas que o observavam nos seus aparelhos de televisão não sabiam quem de fato as encarava; e como poderiam saber, se jamais o conheceram? A televisão refletia apenas a superfície das pessoas.”

Jerzy Kosinski, em O Vidiota

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