Carta aberta a Gilberto Freyre

Caro mestre de Santo Antônio de Apipucos, o motivo desta é tão-somente te dar notícias sobre os modos de homem e, principalmente, sobre a involução das modas de mulher.

Amigo, se já temias o avanço da modinha europeizante no madrugador 1986, não te darei uma boa-nova, muito pelo contrário: a fêmea brasileira se tornou a maior consumidora de tinta loira do planeta. Sei que não és de espanto, viste de tudo nesse mundo –aqui incluído as assombrações como os pernambucaníssimos papa-figos-, mas a nossa morenidade sofre um golpe atrás do outro.

Sim, ainda vemos grandes bundas, ótimos latifúndios dorsais, mas na maioria dos casos contra a vontade das suas angustiadas proprietárias. Elas perseguem um outro corpo, um outro ideal de belezura,sonham com Giseles e outros fetiches ao melhor estilo vara-pau, bunda-seca, bundinhas que não rendem um pastel de feira.

Estás sentado, amigo? Então escutas mais esta: os cabelos encaracolados que enfeitavam as cumeeiras das nossas Sônias Bragas, lembras?, eita, estes sumiram de vez da nossa paisagem. Alisaram o mundo todo, amigo. A humanidade das fêmeas virou Vera Fischer por estas plagas.

A chapinha esquentou em todos os cocorutos, mesmo nos mais melanizados. Temos um salão de beleza a cada esquina, nos sobrados e nos mocambos, na casa-grande e na senzala.

O clareamento é a tônica.

E não tão-somente nos quesitos capilares, meu velho G.F.. Do teu livro “Modos de Homem & Modas de Mulher” (1986) para cá, tem sido uma reviravolta, um sururu na área a cada instante.

Sabes a maciez da mulher brasileira, as carnes de se apalpar em safadezas tantas? Pois bem, meu caro, todas correm a perdê-las na primeira fórmula milagrosa que encontram.

Não existem mais os corpos para os quais fomos sentimentalmente educados. Os colos macios de moças são cada vez mais raros. Tudo músculo endurecido de traveco ou de zagueiro. Não é mais nem aquela coisa assim Roberta Close, por quem nutrias uma admiração pela fartura da bunda, É só dureza. E pronto.

As cheinhas ou desapareceram ou estão meio desgostosas, isso é trágico, meu velho. Claro que molho a pena no tinteiro do exagero, mas precisamos ser panfletários para evitar a catástrofe definitiva.

Aqui me despeço, atenciosamente, mirando uma bela bunda, essa sim uma rara morena, uma jambo-girl, como diríamos em tempos de aldeias globais, uma legítima afilhada dos trópicos que passa sob a luz do final da tarde da vila Pompéia, a melhor iluminação natural, sem filtro, para se ver a cor morena.

Xico Sá, na revista Continente.

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