Em si mesmo nada há de terrível

Em si mesmo nada há de terrível no fato de o homem ter de transpirar, a mulher de dobrar-se de dor e a serpente de rastejar. Entre outras coisas, essas premiações são intercambiáveis entre os que as mereceram. São menos punições de Deus do que carícias da narrativa, distrações sensoriais que tornarão a história ao mesmo tempo mais interessante e mais consistente.

A verdadeira punição não consiste nem mesmo na morte, que espreita no parágrafo seguinte mas mostrará ser ao mesmo tempo provisão e cortina de fumaça.

O verdadeiramente terrível está em que o homem terá de usar roupas, isto é, terá de ocultar o que é e como foi criado. Ter a nudez coberta é nossa punição e o verdadeiro emblema da ambivalência da nossa condição. Para sempre dissimulados, para sempre disfarçados, somos condenados pelas instruções da nossa narrativa a viver encobrindo a abundância em suas implicações de liberdade, graça, sexualidade, beleza e autonomia – numa palavra, glória – ao invés de, como deveríamos ser capazes de fazer no paraíso, gerenciar a abundância com integridade, criatividade e responsabilidade.

As roupas servem de símbolo para o quanto isso é difícil, e para o quanto é tarefa exigente olharmos para nós mesmos, conhecermos a nós mesmos e nos aceitarmos. Encobrir a nudez é admitir, candidamente, nossa incapacidade de gerenciar nossa abundância e nos relacionarmos de modo íntegro e integral com os outros.

Esta é uma história sobre as complicações da autodeterminação, e as roupas são, paradoxalmente, símbolo de um precário voto de pobreza, ícones de uma autonomia que está sempre à espreita e deve ser constantemente tolhida – porque qualquer um pode, incrivelmente, escolher tirar as roupas onde quiser. A nudez é sempre um reencenamento da transgressão, e nisso tem o poder de fazer a história tomar imediatamente novos rumos, gerando novos conflitos, novos personagens e novas alianças.

O poder e a abundância, a graça e a autonomia, persistem, debaixo da mais fina e mais contingente das camadas.

O pudor é sua própria punição, porque tudo que faz é condenar e tolher. É uma cela e um prêmio, porque nos protege e nos cerceia. A glória e a autodeterminação permanecem sendo um problema e um dom que não sabemos conter mas não sabemos como gerenciar.

Dito de outra forma, encobrir a nudez é mais um problema do que uma solução. Quem nos livrará do corpo dessa morte?

Paulo Brabo, no A Bacia das Almas.

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