Graça na desgraça

Michael Jackson, o entronizado “Rei do Pop” morreu.

A notícia correu rapidamente nesse mundo virtualmente globalizado.

Fãs aglomeram-se em locais-ícone da história dessa figura do mundo da música, as TVs cobrem à exaustão o fato, nos principais portais da internet as últimas notícias e comentários sobre sua vida são abundantes, os mecanismos de busca como o Google por exemplo registram 79 milhões de resultados no momento em que escrevo essa reflexão.

Garoto negro, pobre, filho de um metalúrgico exigente e de uma dona-de-casa afetada pela poliomielite, nasceu em plena época da luta dos negros pelos mesmos direitos civis que os brancos. Desde cedo seus irmãos mais velhos demonstravam talento para a música, e com Michael não era diferente. Desde a infância era evidente seu carisma, algo que seus irmãos não possuíam, além de uma voz marcante que o levou a ser o vocalista e destaque da banda Jackson 5, em 1969.

Já nos anos 1980, segue em carreira solo lançando 3 discos que o consagraram no cenário mundial da música, uma vez que como vocalista do Jackson 5, seu talento era reconhecido: Off the Wall produzido pelo maestro Quincy Jones; Thriller e BAD. A explosão de criatividade, evidenciada na fusão de estilos musicais e no tratamento diferenciado de seus vídeo-clips, com destaque para Thriller, o consagrou ao posto que até ontem desfrutou em vida , como “Rei do Pop”.

Como todo ciclo da natureza, após o ápice vem a fase de declínio. Com álbuns não tão inspirados, repetindo as mesmas fórmulas que o consagraram, mas mesmo assim mantendo seu estilo e ainda conquistando novas gerações com sua música, entra em uma fase estável em sua carreira, que poderia ter se perpetuado caso suas extravagâncias e escândalos não tivessem prejudicado sua imagem pública.

Acusações de pedofilia, mudanças radicais na aparência, casamentos esquisitos, concepção de filhos realizados de maneira suspeita, gastos perdulários, processos judiciais, acordos milionários, vida extravagante, manias, esquisitices e finalmente falência são os principais ingredientes nefastos de sua curta vida.

No que tange a saúde lúpus, vitiligo, dores constantes a ponto de ter se viciado em analgésicos além da exigência extrema do corpo nas danças são algumas das doenças mais divulgadas. Quanto à sua vida, teve um pai exigente e autoritário, o seqüestro de sua infância e adolescência pela fama, o excesso de dinheiro que permitia a si a fuga da realidade e o assedio das vicissitudes inerentes ao show-business.

Certamente, apesar de aparentemente ser uma criança-adolescente aprisionada no corpo de um adulto (a chamada síndrome de Peter-Pan), Michael Jackson viveu, em intensidade, mais de 50 anos. O turbilhão que o assolou desde os 9 anos de idade, o envelheceu rapidamente na alma. Tornou-se vítima de seu talento e carisma ao entrar na roda da neurose coletiva de criarem para si “ídolos”, esquecendo-se de suas limitações como qualquer ser humano normal e permitindo-se que suas esquisitices dominassem sua vida, não mais discernindo as coisas.

Paulo em 2 Coríntios 4:7 diz: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.”. Apesar do contexto concernente ao evangelho que esse fragmento integra, não consigo deixar de associá-lo a vida desse astro pop.

Apesar da pobreza e de sua origem étnica, a vocação musical de sua família, herdada de seu pai, músico que tocava na noite, eram sinais manifestos da graça de Deus, mais ainda com o carisma do pequeno Michael. Mesmo diante de uma família em um contexto fraturado, com cobranças, exigências, má conduta paterna, relacionamentos interrompidos, Deus não se furtou em agraciá-los com o dom da música, algo que é tão importante na terra como no Céu, ainda mais nesse.

O uso dessa graça, que só se manifesta em gente, é de competência pessoal. E decisões pessoais tem o poder de transformar graça em desgraça. Ao ver a incontida vocação de seus filhos para a música e também uma oportunidade de melhorar a vida de sua família com esse dom, seu pai tratou de investir nesse sentido, obstinadamente esquecendo-se que o “menino de ouro” era só um menino, que precisava ser menino em seu tempo de menino.

No entanto, mesmo diante dessas circunstâncias, o “tesouro” do talento e do carisma de Michael sempre estiveram contidos em um “vaso de barro” – o próprio Michael. Uma grande voz em um ser infantilizado; um performer contido em uma aberração física; um ser divinamente criativo com uma conduta sexual duvidosa; um ser que em seu interior abrigava o astro reluzente de seus dons concomitante ao buraco negro de sua existência.

Esse conflito irresoluto o levou à reclusão. Além das necessidades financeiras que o pressionavam, dizem que ele animou-se a retornar ao show-business pois queria que seus filhos -agora já mais crescidos- o vissem no palco, mais ou menos no mesmo sentimento do pai que leva, orgulhoso, seu filho para o trabalho. Quem sabe?

Para mim que na minha adolescência e juventude tiveram a presença marcante de Michael Jackson, apesar dos escândalos, torcia para que esse retorno pudesse ser “a” volta por cima. Para que além de mim, minhas filhas pudessem testemunhar essa manifestação da graça incontida de Deus em um ser humano, tão humano como Michael Jackson. Que mesmo diante de suas idiossincrasias, seu talento e carisma divinos falavam mais alto que qualquer fracasso em sua vida pessoal.

Na verdade o que seus fãs não sabem é que são fãs não de Michael Jackson, mas da graça divina que resolveu se manifestar nele, apesar dele. O “vaso de barro” se quebrou, sem conserto na terra. Fica a lembrança da graça divina que ele manifestava nas suas músicas, danças, clips e shows.

Blog do Eli Sanches

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