O querubim endiabrado

Michael Jackson aprendeu a cantar como um anjo e dançar como um cafetão fazendo shows em puteiros aos oito anos de idade. Levava surra do pai, Joseph, se não se apresentasse bem, se não ensaiasse o suficiente – qualquer razão era boa. Os irmãos Jackson entravam todos no couro. Michael, o sétimo filho e óbvia estrela do grupo, apanhava mais.

Na casa dos Jackson era deus no céu – Jeová, eram Testemunhas – e Joseph na terra. O pai tinha tentado se dar bem como artista. Acabou metalúrgico e empresário e feitor dos filhos.

Devemos a esta figura detestável o maior artista que a música jamais teve. Contra números não há argumentos. São 750 milhões de discos vendidos até agora.

O Jackson 5 estreou em 1967, mas foi em 1968 que passaram a fazer parte do elenco da mais eficiente máquina de produção de hits em série da música pop. A Motown Records foi fundada por Berry Gordy em xx.

Seu primeiro hit foi composta pelo próprio Gordy, “Money (That’s What I Want)”. Declaração de princípios, ou falta de. A Motown fazia qualquer coisa por um sucesso.

Os primeiros singles do Jackson 5 na Motown foram “I Want You Back”, “ABC” “The Love You Save” e “I’ll Be There”. Já mereciam os livros de história. Os programas de TV da época não mentem. Michael era endiabrado. Requebrava como James Brown, cantava como Stevie Wonder e era fofo como um querubim.

O primeiro disco solo chegou aos 17 anos, “Got to Be There”. De 76 a 84, Jackson seria não só o frontman do Jackson 5 – depois rebatizado como The Jacksons – mas seu principal compositor.

Em 1978, já com vinte anos, Jackson encontrou uma outra figura paterna. O experiente jazzista Quincy Jones, diretor musical do filme “The Wiz” – em que Michael encarnava o Espantalho do mundo de Oz – produziria com Jackson “Off The Wall” e “Thriller”.

“Thriller” fez a ponte entre o soul dos 60, a disco dos 70 e o novo rock dos 80. Era new wave. Era pop, o melhor do pop de três décadas. E popular: vendeu 109 milhões de cópias, recorde para sempre imbatível. Jackson tinha 37% do preço de cada disco vendido.

Os anos seguintes foram de esquisitice crescente – parte marketing, parte verdadeira. Em 1987, Michael lançaria “Bad”, uma tentativa de repetir “Thriller”. Vendeu, mas vendeu menos. Soava quase sempre histérico, equivocado e pior, velho. Aos 29 anos, o superastro estava ultrapassado. Era uma anedota bilionária.

O que veio depois é menos importante musicalmente. Em alguns casos, constrangedor. A música piorou. Ficou impossível dissociar Michael, o artista, de Michael, o homem cada vez mais distante de sua humanidade. Com sua morte, tudo será perdoado, como foi a seu ídolo, James Brown.

Agora não é mais um slogan vazio: Michael Jackson será para sempre o Rei do Pop.

André Forastieri
dica do dcolsson via twitter

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