Cavernas

Vez por outra preciso achar alguma caverna onde possa me esconder. Não, nesses momentos não quero fugir de Deus, que seria inútil. Também não procuro isolar-me dos outros, que seria tontice. Necessito de silêncio, de calma, de espaço para a alma. Assim, mapeei os lugares onde sei que posso me recolher – vivo em uma cidade entupida de gente.

Catedrais católicas, nos intervalos das missas. O ambiente é amplo, as velas bruxuleantes lembram a brevidade da existência e nunca ninguém interrompe a meditação. Nessas igrejas, as pessoas andam com cautela. Existe reverência diante do sagrado.

Livrarias e sebos, nas segundas-feiras. Quanto mais entulhadas de livros, melhor. As prateleiras absorvem sons, e é possível ficar “perdido” por horas sem ser reconhecido. Nada melhor do que ler orelhas, contracapas, prefácios, para depois voltar para casa refeito; com o coração acelerado para devorar o que se petiscou.

Parques com trilhas, cedo de manhã. Em dias frios, quando poucas pessoas se aventuram a sair da cama, é delicioso sentir o sol se agigantando no horizonte. Para os que correm, regenera perceber a camisa encharcando de suor. Bom mesmo é subir e descer por trilhas estreitas e perigosas para que a mente não se concentre em outras coisas; não cair vira prioridade e isso é saudável.

Cemitérios antigos, entre cinco e seis horas da tarde. Ao contrário do que se pensa, não é fúnebre andar por suas alamedas. Os cemitérios são preciosos para entrar em contato com a dor humana. Ler os epitáfios e constatar a saudade centenária de quem já chorou a partida dos amados, humaniza. Faz bem ao coração reconhecer que devemos cuidar dos que amamos enquanto vivem. Logo, logo, nos despediremos deles – ou eles, de nós.

Confeitarias com aroma de café, em qualquer hora do dia. As mesas pequenas no fundo das confeitarias são excelentes para se pedir um café – pode vir acompanhado de pão com manteiga em dias nublados – e ler um livro despretensioso por no máximo uma hora. Livros despretensiosos são os contos, as novelas, os romances, com menos de 200 páginas. Desfrute do livro com pequenos goles de café. E deixe o pensamento voar até as pessoas mais queridas.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

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