Não há provas suficientes

[Richard] Dawkins, ateu em toda a sua convicção, se recusa a admitir a possibilidade de uma explicação que não explica nada, apenas induz à aceitação passiva das pessoas. Ele se torna até mesmo um pouco agressivo ao comentar a ideia de crença em si: existem as ideia de fadas, duendes e unicórnios cor-de-rosa, certo? Ora, a maior parte das pessoas não acredita em nada disso, uma vez que não há provas de sua existência. Por que haveria de ser diferente com essa entidade chamada Deus, de cuja existência também não temos prova absolutamente nenhuma? Dawkins diz preferir acreditar na ciência, que oferece provas para suas teorias, mas não possui todas as respostas, do que numa religião, que oferece todas as respostas, mas absolutamente prova nenhuma. Assim, combater a religião equivale a incentivar o pensamento, a renovar a busca por compreensão.

Em seu livro, o zoólogo deixa claro que fala de um deus que é um ser inteligente, pessoal e criativo. Um ser que criou o Universo, que faz milagres, que é onipresente, onipotente e onisciente. Este ser, Dawkins deixa claro, não existe. O que pode existir é o que ele chamou de um “deus einsteiniano”, baseado nas ideias do físico Albert Einstein (1879-1955) – um profundo respeito e reverência em relação à perfeição e complexidade da natureza. Um respeito em relação à beleza do mundo – porém, a beleza não é suficiente, é necessária a verdade. E a verdade exige evidência, algo que a religião não traz.

Segundo o zoólogo, nossa sociedade tem uma estranha tolerância à religião, o que leva a uma quase total falta de percepção dos males que ela pode trazer ao homem –e, para ele, traz. No livre “Deus, um delírio”, exemplifica uma situação que considera emblemática dessa tolerância: “quero que o mundo todo estremeça ao ouvir uma expressão como ‘criança católica’ ou ‘criança muçulmana’. Fale de uma “criança de pais católicos”, se quiser; mas, se ouvir alguém falando de uma ‘criança católica’, interrompa-o (…)”.

Para Dawkins, as marcas desse “recrutamento infantil” para as religiões são particularmente maléficas: uma criança não tem discernimento para decidir sua religião, assim como não tem para definir uma posição política. Qualquer um ficaria chocado se rotulássemos um menino de quatro anos como uma “criança marxista”, ou “criança neoliberal” por causa da crença de seus pais. Porém, achamos que isso é perfeitamente tolerável em relação à religião, tirando de muitas crianças a possibilidade de fazer efetivamente uma escolha. Não é à toa que, de uma forma geral, a maior parte das pessoas acredita na mesma religião de seus pais. Na visão de Dawkins, isso faz com que a crença em um deus ou outro não passe de um acaso infinitesimal que se refere exclusivamente à família na qual você nasceu. Mais um bom motivo, diz ele, para não acreditar em religião nenhuma.

A “conversão ao ateísmo” (como ele brinca em seu site) não termina em seu livro. Ele apoia e divulga constantemente a campanha lançada pela comediante inglesa Ariane Sherine a favor do ateísmo. Ela viu em um ônibus londrino a frase “Quando o Filho do Homem vier, encontrará Ele fé na Terra?”. A tal propaganda também indicava um site que dizia que todos aqueles não crentes estavam condenados a uma eternidade no inferno. Como resposta, Sherine criou o “ônibus ateu”, que circula em várias partes do mundo levando a seguinte frase: “Deus provavelmente não existe. Agora pare de se preocupar e vá aproveitar a vida.”

Dawkins auxiliou o lançamento da campanha e comemorou a imensa adesão que ela recebeu. Além disso, a frase do “ônibus ateu” é totalmente inspirada nas ideias de Dawkins. O uso do termo “provavelmente” vem do fato de que Dawkins afirma constantemente que é preciso relativizar o conhecimento humano, pois não se pode provar a impossibilidade da existência de Deus, por mais improvável que ela seja. Além disso, é também o zoólogo que menciona que uma vida longe da religião é uma vida mais feliz e mais livre. Viver como ateu significa não acreditar que há uma outra vida; sendo assim, um ateu sabe que tem que viver ao máximo, e com toda a intensidade possível, a única vida que tem.

Polêmico? Com certeza. É também desafiador, e é nisso que se concentra o zoólogo britânico. Ele diz acreditar que, quando as pessoas são forçadas a pensar sobre suas crenças religiosas, a maior parte delas acaba por questioná-las e por começar a duvidar. Afinal, pode ser que haja conforto numa crença na vida após a morte ou num sentido maior para a existência –mas esse conforto não cria uma ideia mais verdadeira. E que conforto haveria em se acreditar em prováveis mentiras?

Dawkins costuma afirmar que não consegue conceber um Deus que, caso existisse, privilegiaria homens que acreditaram nele, mesmo sem provas de sua existência. E diz que ao morrer, se deparar com um Deus impiedoso e furioso que lhe pergunte por que Dawkins não acreditou nele, responderá como o dramaturgo e ensaísta irlandês e vencedor vencedor do Prêmio Nobel de 1925, George Bernard Shaw (1856-1950) sugeriu: “Não há provas suficientes, Deus, não há provas suficientes”.

trecho de matéria na Folha Online.
dica do Jarbas Aragão

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