A missionária da dança

Que sacrifícios você faria em nome de um sonho? Abriria mão de conforto, ganhos materiais e do próprio dinheiro?

Ontem conheci Gisèle Santoro, coreógrafa, ex-bailarina, ex-pianista e idealizadora do Seminário Internacional de Dança de Brasília, um evento que chega amanhã, dia 12, à 19ª edição graças à dedicação desta mulher de 70 anos. Durante três semanas, jovens bailarinos de todo o país estarão participando de workshops, aulas especiais, concursos e disputando bolsas de estudo no exterior. Os prêmios são modestos. O mais alto, para ser dividido por equipe, não passa de R$ 2 mil, mas quem cair no radar de um dos olheiros internacionais presentes ao evento poderá ganhar uma bolsa de estudos de até dois anos nas melhores escolas formadoras da Europa.

Mãe de três filhos, viúva do maestro Claudio Santoro, a discreta Gisèle é a maior exportadora de talentos dançantes do país. Em 18 anos de seminário, mais de 600 jovens foram estudar fora graças ao patrimônio mais valioso dessa senhora: os contatos com mestres da dança da Europa, figuras sempre presentes no Dance Brasil 2009, nome fantasia do evento na capital federal. Por esse movimento silencioso, que só vira notícia quando envolve negociações milionárias de jogadores de futebol, o Brasil vem emplacando talentos nas principais companhias de dança européias, como o jovem Tiago Bordin, primeiro bailarino da Ópera de Hamburgo, na Alemanha.
“Por isso que eu digo que a dança é minha missão de vida”, diz Gisèle.

“A carreira no Brasil é muito cruel. Temos teatros lindíssimos que só servem para aluguel. Não contam sequer com um corpo de baile”, lamenta. Ela tem razão. De todos os grandes teatros nacionais, apenas cinco (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Salvador) tem seus próprios bailarinos. E, para essa indústria prosperar, duas premissas precisam ser atendidas: a formação, o que depende de mais escolas profissionais no país, e um mercado que os absorva. Tente pensar rápido nas companhias privadas de dança brasileiras que fazem sucesso mundial. Poucas, não?

Conversamos durante uma hora e meia numa confeitaria repleta de guloseimas numa das poucas esquinas de Brasília. Eram cinco da tarde de sexta-feira. Ela comeu uma torta de chocolate e tomou Coca Zero. Eu fiquei no suco de laranja com pães de queijo. Havíamos confirmado o encontro apenas três horas antes, mas ela havia dito que daria um jeito de estar lá. E deu. Gisèle chegou sorridente, sem maquiagem, sem brincos, portando um par de óculos de armação simples, com seus cabelos curtíssimos e pintados de preto. Leia +.

Isabel Clemente, no blog Mulher 7 x 7.

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