O conceito teológico

O conceito teológico de “separação de Deus” como consequência da transgressão é uma artificialidade que a narrativa (que é teologicamente agnóstica) desconhece por completo. O homem não conhecerá essa inconcebível condição: Deus nunca estará longe, e todos os capítulos desta história concorrerão para demonstrá-lo.

Nem o pecado nem a transgressão (e, como se verá, nem mesmo a morte) serão capazes de separar os protagonistas um do outro. O terrível está numa realidade transversal, em que as demandas da queda os separarão da sua imagem comum, e portanto de si mesmos. Homem e Deus caminharão tropeçando um no outro pela terra, parágrafo após parágrafo, mas terão perdido a identidade comum. Olharão no olho um do outro, mas não serão capazes de se reconhecer, porque sua glória estará oculta; não puderam, cada um a seu modo e devido às exigências das suas escolhas (as exigências da narrativa), administrar a abundância.

A expulsão do Éden não serve para separar Deus e homem, A expulsão do Paraíso são as roupas de Deus.mas para ocultar dos homens a vergonha da glória divina. A transgressão humana revelara a divina nudez, e a expulsão do Paraíso são as roupas de Deus.

Como as peles que cobrem o homem e a mulher, trata-se de uma solução contingente, que traz em si mesma suas próprias ambivalência e insuficiência, sua própria punição. O inferno é onde Deus e homem não encontram espaço para revelar a sua glória comum.

A narrativa da queda não explica, portanto, que Deus e homem terão de viver separados, mas que viverão ambos em oculto, e portanto separados de si mesmos.

Até que, quem sabe, encontrem-se na nudez.

Paulo Brabo, no blog A Bacia das Almas.

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