apenas o fim

nossa relação já não estava boa há muito tempo e acabou, de fato, há poucos dias. ainda estou me acostumando a acordar e saber que não estamos mais juntos, mas depois de tanto tempo percebi que não, não dava mesmo para continuar. a cada dia ficávamos mais distantes e vi que apenas insistíamos no erro.

no começo era tudo curtição. constantes passeios, cursos, teatro, livraria, cinema, shows, bares, restaurantes, era como se eu necessitasse de sua presença, que me proporcionava uma sensação de segurança sem par. só de imaginar sua ausência, eu já me sentia sem direção.

acontece que o que era pra ser uma relação fugaz tornou-se cada vez mais íntima. eu sabia que não podíamos dormir juntos, mas às vezes esquecia que isso era uma atitude ‘errada’ e quando via, o despertador do celular anunciava que já era o dia seguinte. não conseguíamos ficar distantes e desde a hora em que acordava até o momento de dormir, eu só tinha a mesma coisa na cabeça, enfim, um vício, que aos poucos foi tomando conta da minha vida a ponto de chegar a pensar que seria pra sempre.

lógico, como toda a relação havia aquele período de indiferença. às vezes eu enjoava e trocava só pra não cair na rotina. acabei até me encantando com outros mais bonitos, mais finos, mais velhos ou novos, mas não adiantava, era como um imã ou um bumerangue, que quanto mais longe eu arremessava, com mais força voltava.

obviamente não foi fácil lidar com o fim e tive de procurar ajuda médica. para suportar a dor, tomei remédios fortes que me faziam dormir. após o término, apesar de sentir um alívio, fiquei 5 dias em casa, só fugi para ver o show do caetano veloso, no dia 13 de junho.

é… pra quem nunca usou óculos pode parecer besteira, mas para mim, que os tive comigo durante vinte anos, sei bem do que falo. acontece que foi preciso dar um fim neles e agora, que rompemos de vez, sei que fiz a escolha certa e tenho sido uma pessoa mais feliz desde o dia 09 de junho, quando fiz a cirurgia para correção de miopia e astigmatismo.

agora eu não dependo mais deles e se antes eu via desfocado, sei que os graus que me impediam de enxergar são apenas números sem importância que desapareceram com a aplicação de um laser, assim como espero que aconteça com algumas lembranças cujas duas lentes de vidro tanto presenciaram mas, vira e mexe, insistem em gritar nos meus ouvidos, ressucitar feridas quase cicatrizadas ou saltar às minhas vistas, agora nuas, como palavras cortantes perdidas em anotações virtuais do ciberespaço.

e apesar do charme que – dizem – os óculos me proporcionavam, não há mais tesão da minha parte por eles e um relacionamento entre nós não daria mais certo mesmo. por isso, posso dizer sem medo de errar:

eu não preciso mais de vocês.

lucas guedes, no Blog das 30 pessoas.

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