Bezerro de ouro

Borges escreveu sobre William James que “certa vez tentou-o o suicídio; repetiu, como quase todos os homens, o monólogo de Hamlet. Dessas trevas seria salvo por um ato de fé. ‘Meu primeiro ato de livre-arbítrio’, escreveu, ‘foi crer no livre arbítrio’, livrou-se assim da fé opressora de seus pais, o calvinismo.”

O trecho transcrito é do inquieto William James em The Varieties of Religious Experience:

Creio que o sentimento é a fonte mais profunda da religião e que as fórmulas teológicas e filosóficas são produtos secundários, como as traduções de um texto a outra língua. Quando sustento que as fórmulas teológicas são produtos secundários quero dizer que, em um mundo em que nunca haja existido um sentimento religioso, não se pode formular nenhuma teologia filosófica.

Estamos obrigados a permutar nossos sentimentos, e ao fazê-lo somos forçados a usar fórmulas verbais gerais e abstratas. As concepções e as construções são assim parte necessária de nossa religião e a filosofia terá que intervir como mediadora entre concepções opostas e como moderadora de choque entre hipóteses em conflito. Em outras palavras, a experiência religiosa espontânea e inevitavelmente engendra mitos, superstições, dogmas, credos e teologias metafísicas.

Todas essas operações intelectuais, sejam construtivas, comparativas ou críticas, pressupõem experiências imediatas como tema (…) O intelectualismo religioso que intento desacreditar pretende ser algo completamente diferente. Atribuir a construção de objetos religiosos somente às fontes da razão pura; extrair com a razão inferências rigorosas a partir de atividades não subjetivas. Suas conclusões podem ser chamadas de teologia dogmática ou filosofia do absoluto, conforme o caso.

Os sistemas verdadeiros sempre foram os ídolos das almas ambiciosas. O sistema inclui tudo e, não obstante, é simples e nobre, límpido, claro, estável, rigoroso, verdadeiro. Que refúgio pode haver mais adequado que o que oferecia um sistema semelhante as almas ultrajadas pela turbulência e contingência do mundo das coisas sensíveis? Por estas razões é que encontramos nas escolas teológicas de hoje, quase tanto quanto nas de ontem um desprezo deliberado pela verdade meramente possível ou provável e pelos resultados que tão somente podem ser adquiridos individualmente. Escolásticos e idealistas coincidem abertamente neste desprezo.

Alysson Amorim, no blog Amarelo fosco.

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