Sobre um livro diferente

EM 2007 , saí tensa de uma temporada em Berlim, reprimindo lembranças esquisitas da cidade em porões baixos da mente.

Para me livrar da sensação, antes de voltar ao Brasil, fui a Paris, que eu não conhecia senão pelos relatos apaixonados de amigos e Hemingway. Larguei a bagagem num hotel três estrelas na rue Saint-Lazare e saí pelo nono “arrondissement”.

Entrei num bistrô, deixei a cabeça e o estômago à mercê do vinho da casa e segui. Na rue Laplace uma velha me estendeu as mãos como se pedisse dinheiro. Catei os bolsos do sobretudo e pesquei uma nota de cinco euros, que quase detive entre os dedos, mas tive vergonha de negar ajuda.

Tomando meu braço direito, empurrou aberta a portinhola sob a placa de número 3, onde também se lia o salgado preço cobrado para “dizer o futuro”. A velha me fez sentar num sofá de veludo amarelo e abriu uma mesinha plástica dobrável, onde dispôs um bolo de cartas cujas figuras me pareceram desenhadas à mão.

Talvez a nota que eu oferecera me desse direito a uma versão mais barata do futuro que ela se dizia capaz de prever.

Esperei pelo habitual: a mulher que me tinha inveja, o amor do passado que eu reencontraria, mas o que ela falou encerrou rapidamente a consulta: “Esqueça o livro que você estava escrevendo, vai ser um outro, diferente”.

Corri porta afora à menção do livro. Escrevo à mão meus começos e rascunhos, às vezes capítulos inteiros. Eu não tinha apanhado na esteira do aeroporto a mochila com três cadernetas e um caderno maior, preenchidos em Berlim.

No hotel, pedi ajuda ao gerente, que ligou para o aeroporto e obteve a seguinte informação: qualquer bagagem abandonada é apreendida por medida de segurança antiterrorista e destruída. “Eu chamo o táxi, peça ao motorista que corra”, comandou.

Paris já me parecia mais louca que Berlim àquela altura. Impressão que aumentou quando um engarrafamento numa das vias principais impediu que o táxi se movesse.

Pensava no tarô e no livro. Eu perdera meu livro inteiro. Minha imaginação via funcionários do aeroporto destruindo os cadernos com as palavras que eu escrevera sobre Berlim em um galpão à prova de explosivos e armas biológicas onde colocavam toda a bagagem abandonada no aeroporto e transformavam em pó.

O engarrafamento se dissolveu assim que Sarkozy terminou seu passeio de posse em carro aberto em direção ao Palácio do Eliseu, de acordo com o rádio do táxi.

No aeroporto, abri a carteira para pagar o chofer e me dei conta do segundo grande engano do dia. Por que a velha me lera o Tarô, se meus trocados não chegavam ao valor estipulado na placa à porta da casa?

Porque eu não lhe dera a nota de cinco euros. O vinho que eu tomara lhe deu a de cinquenta. O chofer aceitou esperar e me levar ao hotel, onde eu lhe pagaria a tarifa.

Dentro do aeroporto, fui passada de setor a setor, sem respostas e sem esperanças, até que um funcionário surgiu com a mochila azul intacta.

Rá! Bom motivo para voltar à cigana e dizer que ela estava errada: recuperei a mochila, então por que eu não continuaria escrevendo o que já começara naqueles cadernos? Que devolvesse meu dinheiro!

Não voltei à cigana porque o que li em minha caligrafia naquele final de tarde, quando me deitei na cama do hotel com os cadernos, não me dizia mais nada.

Em Berlim, a história havia sido uma. Fora de lá, a cigana estava certa: a história que eu escrevo agora sobre a cidade é outra. A superpopulação de lembranças esquisitas pede para sair dos porões.

Cecilia Giannetti, na Folha de S.Paulo.

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