Há pelos

Era uma vez um pastor que sempre fazia apelos. Tendo ou não sermão, o apelo existia. Fazia apelo em tudo o que considerava oportunidade.

Em aniversário de crianças:

“Alguma criança quer comer bolo na casa do papai do céu um dia? Levanta a mãozinha… A gente nunca sabe quando vai comer um salgadinho estragado… Não vou falar mais… Jesus fica triste quando você se aproxima da mesa dele só quando tem brigadeiro…”

Em velórios: “Não deixe que a vergonha e o respeito pela viúva o impeçam de vir à frente. Amanhã pode ser você que estará coberto de flores. Vou orar por você e já poderá morrer a qualquer momento; sem carência nenhuma…”

Em casamentos: “Você mocinha, que um dia quer estar aqui, mas se sente cada vez mais longe desse sonho… Tome essa atitude de fé: venha à frente enquanto os noivos cumprimentam os padrinhos…”

Tinha muita unção, mas era sem noção. Fazia apelo até em oração para se iniciar uma pelada de acampamento.

Acontece que um dia fora convidado para pregar em uma dessas igrejas em que, especialmente as mulheres, não mexem no corpo. Fazia muito calor. Tudo estava muito quente em todos os sentidos: culto, corpo, espírito… Chegara então o momento do grande apelo de consagração, ou coisa desse tipo. Muitas – para não dizer todas – irmãs se consagraram, mas a visão das axilas in natura deixara o pastor tão impactado – só para usar expressão contemporânea – que naquela noite, dizem, nem o suquinho ralo de maracujá, nem o lanchinho com carne moída ao final do culto tomou.

Na verdade, nunca mais fez apelos. Nunca mais nem pregou. Nunca mais nem se o viu em igreja alguma.

Wilson Tonioli, no blog Verticontes.

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