Chão de estrelas (vermelhas)

Na última sessão do Congresso, no semestre, tentei falar. É preciso ir ao Senado se inscrever. O caminho passa por uma parede envidraçada. Há uma entrada discreta e, pela escada em caracol, chega-se ao subterrâneo, cheio de funcionários. Um deles tem o livro. Havia cinco nomes de deputados, com o meu. Pensei: Sarney, ao ler esses nomes, não virá presidir o Congresso. Foi assim com Renan. Eles abandonam o Congresso, antes do Senado.

Há uma dezena de deputados dispostos a enfrentar o PMDB, aliados e a combatividade da estrela vermelha. Aliás, voltei ao Salão Verde, pensando nela. A estrela vermelha para mim não tem sentido. Eu a vi nos tanques sérvios que atiravam nos civis e em nós, repórteres. Agarrados à estrela vermelha, perpetraram crimes horrendos sob o título de limpeza étnica.

Assim como a suástica, estrelas vermelhas levam ao desastre, quando se decide obedecer, cegamente, a um projeto de poder. Mais importante do que símbolos políticos, é a velhice. No passado, a velhice era cultuada, como um tempo de sabedoria e generosidade. Hoje, com o comportamento de José Sarney, esta imagem está ameaçada. No passado, falava-se em respeito aos cabelos brancos. Hoje, já nem se usam cabelos brancos.

O que eram apenas defeitos colaterais, como a teimosia e a perda de contato com a realidade, hoje prevalecem. Ouço senadores clamando por um gesto de grandeza, a renúncia. Cercado por uma alcateia, faminta de cargos e vantagens, Sarney não renuncia.

Não se trata só de um constrangimento ao ver o Senado definido como casa de horrores. Mas o de conviver um grupo de homens idosos, movendo-se com uma desenvoltura criminosa, unindo nos lábios do povo as palavras velho e safado, como se fossem gêmeas que nascem ligadas. Tempo de tormentas.

Fernando Gabeira, na Folha de S.Paulo.

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