Protestantismo: vanguarda e atraso

Uma marca da Idade Moderna ocidental foi a criação dos estados nacionais, que substituíram a fragmentação geográfica do poder do feudalismo e seus barões, os reis fracos, o imperador nominal e o poder temporal da Igreja de Roma. As soberanias desses países eram identificadas com as pessoas de seus próprios soberanos, o que Duverger denomina “poder personalizado” (absolutismo) e que deu origem à máxima do rei Luís 14: “O Estado sou eu”. As revoluções burguesas da Inglaterra, França e Estados Unidos romperam com esse modelo, que foi substituído pelo “poder institucionalizado”: o Estado Constitucional de Direito. O Estado é como uma instituição regida por normas legais e legítimas, em que o cidadão substitui o súdito, e os governantes são detentores eventuais e temporários de um mandato regulado.

Enquanto isso o Brasil, de 1500 a 1824, viveu sob o absolutismo e teve sua primeira Constituição imposta, dominado por uma aristocracia, depois substituída por oligarquias após a segunda Constituição, no patrimonialismo tão bem estudado por Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder”. Tem sido toda uma luta histórica o ampliar a cidadania para as minorias religiosas, os indígenas, os negros, as mulheres e os brancos pobres. O formalismo democrático tem maquilado a dura realidade da exclusão e da opressão.

É nesse pano de fundo que a chegada do protestantismo histórico de missão entre nós — a partir de meados do século 19 –, representado por congregacionais, presbiterianos, batistas, metodistas e episcopais (anglicanos), representou um avanço. Essas igrejas se constituíram em vanguardas, não somente porque advogavam a abolição da escravatura e a República, ou o fim de uma religião oficial (regalismo/padroado), com a instauração de um Estado laico. Ou porque foram pioneiras na introdução da escola mista, dos cursos profissionalizantes, da educação física e da prática de alguns esportes (basquetebol, voleibol). Ou porque popularizaram o uso da Bíblia no vernáculo.

O vanguardismo decorria da sua própria ideologia motivadora: promover uma fé superior, a democracia e o progresso, que marcaram a retórica dos pioneiros estrangeiros e nacionais. O protestantismo foi vanguarda no Brasil principalmente pela introdução do poder institucionalizado em suas organizações eclesiásticas. Cada uma delas era uma instituição impessoal, com estatutos, definições doutrinárias, exigências morais e forma de governo (congregacionalismo, presbiterianismo e episcopalismo), com suas esferas locais, regionais e nacionais. Os direitos e os deveres a todos obrigavam (isonomia) e os seus dirigentes chegavam, exerciam e saíam dos seus cargos segundo o que prescreviam as normas, por mais brilhantes que eles fossem (e tivemos muitos servos brilhantes naquele período). Enquanto o Brasil vivia o longo e doloroso parto da superação do poder personalizado pelo poder institucionalizado, com avanços e recuos, golpes e ditaduras (obra ainda não concluída), as igrejas protestantes deram, por mais de um século, um testemunho silencioso como instituições de direito.

No entanto, nas novas expressões do protestantismo, com seu “crescimento” fragmentado, o velho coronelismo, o antigo espírito oligárquico, o clássico patrimonialismo, o mítico sebastianismo (com seus taumaturgos) do “mundo” cultural político brasileiro fez um caminho inverso: quando nosso Estado nacional e nossa sociedade civil procuravam superá-lo, ele adentrou, avassaladoramente, às novas (e algumas velhas) igrejas e se instalou. A vanguarda protestante foi substituída pelo atraso, ou pela vanguarda do atraso.

Se nossos partidos políticos têm vida curta, são carentes de ideologia e programas, centrados, na prática, em um caudilho carismático (Vargas, Prestes, Plínio, Ademar, Brizola, Lula…), nossas novas grandes e pequenas “denominações” começam a girar em torno de nomes, que quando falecem afetam suas instituições (de Melo, MacAlister), ou que estão vivos e ativos (Miranda, Oliveira, Macedo, Soares, Santiago, Hernandes, Milhomens, Rodovalho, Garcia etc.), descendo também ao âmbito local, com os “donos”, caciques, barões, denominados bispos, arcebispos, missionários, apóstolos ou pastores, em um sem-número de igrejas-feudos ou igrejas-empresas.

Parafraseando o rei absolutista francês, cada um pode dizer: “A denominação sou eu”, ou “a igreja sou eu”, “essa é a ‘minha’ igreja”, “esse é o ‘meu’ povo”. Em uma inversão em relação ao passado, o dirigente não se subordina à instituição ou às normas; antes, estas vão ao seu reboque, casuisticamente. O poder é vitalício (e, às vezes, hereditário), e seu “espírito” vai atingindo antigas instituições, pela prática de reeleições ilimitadas. Os cidadãos recuam ao “status” de súditos, manipulados, alienados, inclusive como eleitores “de cabresto” dos “candidatos oficiais” nas eleições para os cargos públicos.

Como poderemos superar essa manifestação de atraso e voltar a ser vanguarda?

Robinson Cavalcanti, na próxima edição da Ultimato.

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