Onde está toda a gente?

LISBOA – O mundo avança. Eu fico. Há dez anos, na companhia de amigos, resolvi fundar um blog. Eu não sabia exatamente o que era um blog. Lia Andrew Sullivan, no seu “Daily Dish”, e apreciava a capacidade do bicho para publicar em cima do acontecimento. Eis o sonho de qualquer colunista: emitir opinião em cima da ocasião. Bom slogan. Vou registar.

Então avançamos. Em Portugal, os blogs eram poucos. Blogs de opinião, praticamente inexistentes. Escolhemos nome, em homenagem a Manzoni (“A Coluna Infame”), e durante dois anos, as noites eram nossas. Os dias eram dos leitores. Divertimentos? Mil. Polêmicas? Bastantes. O próprio blog terminou em polêmica e a polêmica, de tão sanguínea, chegou aos jornais.

De modos que: em 2002, talvez 2003, despedi-me da blogosfera. Verdade que nunca vivi intensamente o fenômeno. Uma brincadeira é uma brincadeira é uma brincadeira. Regressei aos livros e, claro, à imprensa. A internet é um parque infantil. Quem deseja viver eternamente num parque infantil?

A resposta correta é: toda a gente. Dez anos depois, olho em volta e estou mais só do que nunca. Entendi o fato depois de um jantar lisboeta onde todos falavam de mundos que eu ainda não visitei. Facebook. Twitter. Esses são apenas os tradicionais. Depois existem os outros, com nomes impronunciáveis e virtualidades idem.

Parece que toda a gente “está” no Facebook e “está” no Twitter. Atenção ao verbo “estar”: fisicamente, os novos internautas podem estar sentados a uma mesa de jantar. E sorriem. E conversam. E parecem gente. Mas, na verdade, eles não “estão” onde nós estamos. Onde eu estou. Eles habitam o espaço virtual, onde desenvolvem amizades virtuais, inimizades virtuais. Sem falar de amores ou traições rigorosamente virtuais. Não sei se existem casamentos, divórcios ou funerais virtuais. É provável.

Mas o pior de tudo é ser questionado. E eu? “Estou” no Facebook? “Estou” no Twitter? Respondo que não “estou” em nenhum. Alarme. Alguém comunica aos restantes que está um ser humano sentado à mesa. Olhares de estupefação e náusea. A minha vontade era responder: mas “estou” aqui, em carne e osso. Podem tocar.

Erro meu. Se não “estou” na internet, eu não “estou” em lado algum. Eu simplesmente não existo. Ou existo, sim –mas numa cidade deserta, como o último sobrevivente de uma catástrofe nuclear. Leia +.

João Pereira Coutinho, na Folha Online.

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