Xodó da vovó (7)

Aos 72 anos, Zelinda de Bona mora sozinha, caminha todos os dias e não toma remédios. É com ar risonho, de criança que acabou de aprontar alguma, que a coordenadora do grupo Amigos Solidários na Dor do Luto conta a sua última “arte”. Depois de sete anos atendendo pessoas pelo telefone, ela encontrou uma nova maneira de se comunicar: a internet. “Eu dou o número do meu celular e do telefone fixo. Fico horas conversando e gasto uma nota, que sai do meu bolso, porque não aceitamos dinheiro no grupo. Com o e-mail é mais fácil conversar com pessoas de outros estados e nosso alcance é maior”, afirma, encantada com a nova ferramenta.

Mas dominar o envio e recebimento de mensagens não foi nada fácil para uma septuagenária que há dois anos nem sabia ligar um computador. “Fiz um cursinho básico de informática e ia a lan house com a apostila para praticar. Enquanto isso, não contei para ninguém porque tinha medo de fazer o curso e não aprender nada. Mas deu certo, comprei um laptop e contei a novidade a todos mandando um e-mail”, diz, com o bom humor que não se imagina em alguém que lida diariamente com o luto alheio.

O grupo foi fundado em 1998 por uma mãe que havia perdido um filho de câncer. Nessa época, fazia quatro anos que um dos netos de Zelinda, de 14 anos, havia sido morto em um atropelamento. Levada por uma amiga que havia perdido o filho, ela foi à primeira reunião – nunca mais faltou. “No começo todo mundo fica em cima e quem sofre o luto recebe atenção, é amado. Mas logo a família e os amigos seguem com a própria vida e a pessoa fica isolada. Ela quer continuar falando, mas ninguém quer mais ouvir. Nós trabalhamos para que essas pessoas que perdem alguém querido tenham quem as escute e apoie”, diz Zelinda.

Trata-se de um grupo flutuante, explica, pois as pessoas participam enquanto precisam de ajuda e, quando superam a dor, partem. “Geralmente a pessoa entra em contato pelo telefone antes de ir pessoalmente. Quando se sente preparada, é normal ainda faltar umas duas vezes antes de aparecer de verdade. Mas, à medida que participa das reuniões, ela já vai se sentindo melhor e quando chega alguém novo vai lá para apoiar”, conta. Nesses anos de Amigos Solidários na Dor do Luto, mais de mil pessoas passaram pelo grupo. E, no que depender da dona Zelinda, outros milhares devem ser ajudados, pessoal ou virtualmente.

fonte: Gazeta do Povo

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