Boquinha e pensamento único

Peleguismo e boquinha, os males do Brasil são. Houve um tempo, não faz muito, que ao governo cabia “apenas” o controle da máquina pública – e dela fazia o que bem queria, durante e entre os períodos eleitorais. Também existiam três poderes com certa independência entre eles. E os movimentos sociais e sindicais eram contestadores.

Isso tudo é passado. O governo continua usando o aparelho estatal, preenchendo com fiéis companheiros os mais de 70 mil cargos comissionados. Mas, enrolado em seus próprios problemas e escândalos, o Congresso praticamente abriu mão de legislar e deixou essa função para o Executivo. O Judiciário é tão lento em seus julgamentos que, quando as decisões saem, já caducaram. O STF se enfraqueceu ao optar por tornar-se um tribunal político, em vez de jurídico.

E temos os movimentos sindicais e sociais. Eram combativos quando estavam na oposição, mas foram cooptados. Essas instituições vivem de mesada do governo, criaram ONGs para receberem verbas públicas. Os dirigentes fazem parte de conselhos de estatais ou são nomeados para cargos com altos salários e benefícios gordos. Antigamente, esses dirigentes seriam chamados de pelegos. Ser instrumentalizado pelo governo era o que de pior podia acontecer a um sindicalista. Mas, hoje, isso virou praticamente um objeto de desejo.

Vejam o caso da UNE. Financiada pela Petrobras, a entidade que deveria representar os estudantes vai às ruas para protestar contra a CPI da empresa e bradar que “o petróleo é nosso”, como se essa fosse a questão. O petróleo com certeza é deles – além de serem subsidiados pela companhia petrolífera, recebem verbas do BNDES, da Caixa e do Ministério da Educação, entre outros detentores de dinheiro público.

Com sua postura dócil, a UNE de hoje envergonha qualquer estudante que não tenha como meta na vida fazer política e ganhar uma boquinha. E há sempre a perspectiva de virar ministro lá na frente, como aconteceu com o ex-presidente da entidade Orlando Silva, um ilustre desconhecido que ocupa o Ministério dos Esportes.

Hoje, a única fonte de crítica ao governo é a imprensa. Mas ela também está acuada. O próprio Lula não perde uma oportunidade de desqualificá-la. Para não falar na publicidade estatal – que tem sido direcionada para a mídia favorável.

Amparada por um frágil discurso de supremacia ideológica e moral, há uma tentativa de impôr um pensamento único ao país. Esta opção feita por Lula e pela cúpula do PT facilita a manutenção do poder em suas mãos. Mas faz um enorme mal à democracia.

Luiz Antonio Ryff, no Destak [via Nonsense].

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