Brasil dos crentes: uma fábula em (des)construção

Hoje acordei meio sonolento, mas fui logo ligando a TV para ouvir as notícias e ao mesmo tempo me acostumar com o novo dia. Repentinamente dei um pulo da cama ao ouvir a manchete principal do jornal da manhã: “EVANGÉLICOS MOSTRAM SUA FORÇA NO BRASIL. OS CRENTES CONSEGUEM ELEGER O NOVO PRESIDENTE E A MAIORIA DA CÂMARA E DO SENADO”.

Arregalei bem os olhos para ter certeza que não estava sonhando e meio que atrapalhado, fui procurando o controle para aumentar o volume da televisão. O apresentador do jornal noticiava alegre essa nova estrutura da sociedade brasileira. Na bancada tele-jornal, ao lado do tradicional laptop, uma bíblia bem no cenário do Bom Dia Brasil.

Será que eu tinha viajado no tempo e nem tinha percebido essa grande mudança no meu país?
Depois fui saber que o novo presidente e os novos deputados e senadores eram pastores que tinham conseguido se eleger graças aos votos em massa das suas megaigrejas.

Corri para meu laptop e acessei o Pavablog. Se alguma novidade tinha acontecido com os evangélicos, com certeza eu iria saber por lá. Para meu espanto, ao abrir o bendito blog, uma pop up anunciava: SITE SUSPENSO POR DETERMINAÇÃO DO CONSELHO DE DIÁCONOS DO MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES, POR DIFUNDIR CONTEÚDO SUBVERSIVO. Pensei comigo: Meu Deus, devem ter deportado o Pava para a Sibéria.

Passei o resto da manhã tentando entender essa nova ordem brasileira. No telejornal do meio dia ouvi sobre os primeiros atos do novo presidente. O ungido chefe do poder executivo, em decreto, mandou fechar de uma vez todos os bares, boates, inferninhos, motéis, cabarés e similares.
Estavam também proibidas, a fabricação de calças compridas femininas e de maquiagem, (claro que as mulheres não gostaram muito dessa lei, mas o que dizer, elas tinham sido a maioria do eleitorado do pastor-presidente).

A Câmara de Deputados se aliou ao Senado e aprovou rapidamente a nova Reforma Fiscal.
Finalmente o imposto sobre a movimentação financeira estava de acordo com a bíblia, seria de 10% e iria direto para as contas das igrejas.

Resolvi sair de casa e ver o quanto as coisas tinham mudado nas ruas. Logo vi uma enorme fila no posto médico. Centenas de cabeludos estavam esperando a senha para se submeterem à sessões de raio laser para retirarem de vez suas tatuagens.

É que essa era uma nova recomendação do Ministério da Justiça. Os tatuados seriam, presumivelmente, condenados em qualquer pendência judicial. Achei melhor pegar o carro e espairecer. Lá fora percebi que no lugar de ORDEM E PROGRESSO, agora a bandeira nacional tinha em sua faixa branca a inscrição: FELIZ A NAÇÃO CUJO DEUS É O SENHOR.

Liguei o rádio para tentar aliviar a cabeça, afinal não é todo dia que se acorda com um impacto desse. O problema é que meu desespero aumentou. Nesse horário sempre ouvia meu programa de MPB. Como era bom me deliciar ao som de Tom Jobim, Milton Nascimento, Chico Buarque e afins. Porém, tentando achar minha estação predileta, não é que descobri que agora só era permitida a veiculação de músicas evangélicas. Quando ia desligar o aparelho, ouvi que iria começar um especial sobre toda a carreira da Cassiane, com a participação do então Pastor Marcelo Rossi.

Achei melhor achar outra forma de relaxar. Peguei minha bíblia e fui pra beira-mar. Comecei a ler sobre a Igreja Primitiva e de como ela fazia diferença na sociedade. Não pelo que proibia, mas pelo que produzia. Não pelo que discriminava, mas pelos que acolhia. Pensei em como, ao passar dos anos, muita gente tinha lutado para tornar nossa igreja mais aberta sem perder o conteúdo.

E agora, como nós (que sempre trabalhamos para inserção das pessoas, e por uma igreja de relacionamentos) iríamos falar do evangelho puro simples, verdadeiro e inclusivo?Se a igreja é um microcosmo do que a Sociedade deve ser, o novo Brasil deveria pensar em que igreja estava criando para a sociedade.

Quer saber, acho melhor voltar para cama e dormir. Acho melhor pensar que isso tudo que aconteceu é só um pesadelo daqueles que nos alcança de vez em quando. Pensei aqui com meus botões: Isso nunca iria acontecer! (ou não?)

Ruben, no blog Mukamatrix.

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