Marina é a imagem de Lula no espelho

No final de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a Cruzeiro do Sul (AC) para inaugurar as obras do novo aeroporto e dar início às da ponte sobre o rio Juruá. Ao lado dos irmãos Jorge e Tião Viana e do governador Binho Marques (PT), fez um discurso em que citou oito vezes o nome do seringueiro Chico Mendes.

Ausente da cerimônia, a senadora Marina Silva (PT-AC) não foi citada pelo presidente, mas seus olheiros registraram no discurso uma referência indireta à ex-ministra do Meio Ambiente.

“A gente está fazendo um túnel no Rio Grande do Sul (…) Esse túnel tem mil e poucos metros, e encontraram ao seu lado uma perereca. Todo mundo aqui sabe o que é uma perereca. Pois bem, e aí resolveram fazer um estudo para saber se aquela perereca estava em extinção. Aí teve que contratar gente para procurar a perereca, e procure perereca, e procure perereca… Sabem quantos meses demorou para descobrir que a perereca não estava em extinção? Sete meses, a obra parada. Eu espero que aqui no Acre não apareça nenhuma perereca na ponte do rio Juruá”, disse o presidente.

Cruzeiro do Sul sempre foi um eleitorado difícil para Marina. Adversário político da senadora, o ex-governador Orleir Cameli, que tem na cidade seu berço político, chegou a abrir a pista do aeroporto para que a população impedisse o avião de Marina, em campanha, pousar. Levou anos para que a senadora petista conseguisse reverter a imagem cultivada por Cameli de que ela era uma inimiga do progresso.

Não é difícil imaginar por que os aliados de Marina, ao ouvirem o presidente entoar a saga da perereca naquela cidade, o tenham considerado deselegante com a senadora.

O entorno da senadora que ameaça ser a maior novidade da sucessão é um pote até aqui de mágoas do presidente da República e de seu partido. Em nenhuma declaração desde que deixou o governo e amealhou novas derrotas na pauta ambiental do Congresso, Marina explicita essa mágoa. Mas se não é este o motor de sua candidatura, tampouco é a proximidade com os ideais do Planalto que a move.

A especulação de que se trata de uma candidatura auxiliar da oposição não encontra sustentação da história política da senadora. Está ligada ao fato de o partido que a convida, apesar de ser um recalcitrante integrante da base do governo no Congresso, estar no jogo da oposição no mapa regional.

A única prefeita de capital do PV é Micarla de Souza, eleita em Natal com o apoio do senador Agripino Maia (DEM-RN). No Rio, o nome mais nacional do partido, o deputado Fernando Gabeira, quase virou prefeito com o apoio de DEM e PSDB. No Maranhão, o partido é feudo do deputado Sarney Filho. E, em São Paulo, o PV é aliado de primeira hora do governador José Serra (PSDB), que lhe entregou a Secretaria de Meio Ambiente da prefeitura, onde o ex-petista Eduardo Jorge permanece até hoje.

Corre que uma candidatura Marina tira mais votos da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, do que de Serra. Numa campanha que ameaçava ser polarizada entre dois perfis tecnocratas, Marina ocupa o lugar da utopia. Aquele que um dia foi de Lula.

Um sinal evidente disso é que nunca se ouviram tantos elogios de petistas à Marina quanto nas últimas 72 horas desde que o convite do PV foi formalizado. Se os petistas não forem capazes de evitar que a Marina saia do partido, urge cuidar que sua candidatura não seja hostil ao Planalto. A ordem é reconhecer a legitimidade de sua liderança e o peso de sua candidatura – “É uma excelente candidata. Como José Dirceu já definiu, ela é um Jedi. Por trás de uma aparente fragilidade, ergue-se uma fortaleza”, dizia ontem poderoso petista.

Enquanto Dilma (“mãe do PAC”) precisa se esforçar para aproximar sua imagem da de Lula (“pai dos pobres”), Marina é a imagem do presidente no espelho. Um dos 11 filhos de um casal de nordestinos emigrados para o Acre, analfabeta até os 14 anos, empregada doméstica para poder estudar e sobrevivente a sucessivas malárias, Maria Osmarina da Silva Vaz de Lima é a cara de Lula. “Ela é do clã Da Silva”, resume o jornalista acreano Altino Machado.

A presença de Marina no cenário sucessório é, no mínimo, uma garantia de que a disputa vá para o segundo turno. Aos petistas, restará impedir que em torno dela se forme uma aliança partidária que garanta mais do que os segundos de televisão a que um minguado PV teria direito no horário eleitoral gratuito.

Em entrevista a Altino Machado, a senadora minimizou a restrição: “Já fui candidata com um tempo de um minuto, que tinha que ser dividido com o Chico Mendes (…) Tínhamos que nos apresentar ao vivo na TV. Isso não tem nada pragmático. Prefiro continuar acreditando que o sonho remove montanhas. Foi isso que fizemos em 30 anos. Removemos algumas montanhas, mas não removemos outras porque não nos expusemos com a radicalidade necessária (…) Tem que ser um movimento da sociedade, dos empresários, dos políticos, dos acadêmicos, dos jornalistas, homens e mulheres, principalmente da juventude, que não se deixa aprisionar pelos projetos imediatistas, que não fica fazendo cálculos do presente, mas que coloca a contabilidade do futuro para ser resolvida agora”.

Representante de um Estado que tem 0,3% do eleitorado, eventual candidata de um partido dono de 2,5% das cadeiras da Câmara, e portadora de um discurso acolhido com previsíveis dificuldades entre os grandes doadores de campanha, Marina precisa apostar na viabilidade de uma militância apartidária, movida a internet e embalada pelo cansaço com a política tradicional.

Se ficar nos 10% a 14% que as pesquisas lhe atribuem já assegurará um lugar na política nacional. Foi esse patamar que projetou o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), que só não o ultrapassou pela verve desabalada que em nada se assemelha à de Marina.

No pior dos cenários, tornaria-se o mais cobiçado apoio dos finalistas do segundo turno. Nessa condição, garantiria para o desenvolvimento sustentável uma posição mais privilegiada do que o tema desfrutou nos anos Lula. No melhor dos cenários, Marina engole um dos favoritos. Dilma? Não é impossível, ainda que, numa economia a galope como vem a de 2010, pareça improvável que os governistas fiquem de fora de um segundo turno.

Maria Cristina Fernandes, no Valor Econômico.

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