Neuroses eclesiásticas (14)

Uma conseqüência desse medo é que, tal como as crianças, perdemos boa parte da nossa capacidade de brincar. Quem não se sente seguro para brigar também terá dificuldades para brincar. E pelo mesmo motivo: pode ser que nosso senhor não goste da brincadeira. Se envolver temas mais delicados, então, é erro na certa.

Como resultado, nosso repertório de piadas é reduzido a menos de 10% e mesmo assim, quando arriscamos algum comentário bem-humorado, logo corremos a emendar: “brincadeirinha…” Isso quer dizer que nossos relacionamentos fraternos também não são muito sólidos, e não suportariam muita autenticidade (daí aquela “vida pasteurizada”que falamos).

Além disso, a brincadeira também está relacionada com a criatividade. O Dr. Erik Erikson, em sua obra As 8 Idades do Ser Humano, demonstra que lá pelos 3 e 4 anos de idade a criança deve atravessar um conflito entre a iniciativa e a culpa . Isso quer dizer que o menino e a menina tomam várias iniciativas, e seu desenvolvimento vai depender de como as pessoas importantes
para elas reagirão na maioria das vezes: se recebendo bem, apoiando, ou se recebendo mal e provocando culpa. Se a reação de fazer a criança se sentir incapaz, desastrada ou má for predominante, o sentimento de culpa aos poucos irá sufocando a disposição de ter iniciativas, de ser criativo.

Talvez isso explique aquela caracterização geral da música evangélica como sendo “sem alma”. Com nossa imagem de Deus perfeito e absoluto, que não poupa nossos erros, nossa criatividade tende a se inibir e ficar subdesenvolvida. “Mais alma” ficaria arriscadamente próximo do erro, seja da sensualidade, ou do ridículo, e ouviríamos a reprovação de algum irmão ou irmã mais conservador.

Nas outras artes acho que isso acontece ainda mais que na música. O medo de “fazer travessuras” nos faz ficar sempre mais na defensiva, num triste paralelo com o terceiro servo da parábola dos talentos…

Uma segunda neurose eclesiástica, conseqüência desse medo de errar, é um afastamento involuntário da verdade – justamente aquela que poderia nos libertar! Com isso quero dizer que, em nossos relacionamentos, por causa do medo de errar, em vez de “ser como sou”, vou procurar “ser o que Deus espera que eu seja”, e também sentir aquilo que Deus ou os irmãos esperam que eu sinta. Isso com a melhor das intenções: vimos que Deus espera que amemos nossos irmãos, que sejamos mansos e humildes, e vamos reprimir nosso desgosto ou raiva, e procurar expressar amor e mansidão.

Karl Kepler, psicólogo, pastor e teólogo.

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