Pequenezas

Eu identifico agora quando uma recordação supera o cumprimento. Imagens flutuam naquela bobeira de estar ali contigo e não mostram interesse em fazer parte de sua vida.

Passamos ao largo delas como banco de shopping. Elas nos enxergam e esperam o nosso retorno. Lembrar é voltar para um lugar que nunca abandonamos.

A gente só confessa que lembra observando duas vezes o que esqueceu.

Sei quando uma lembrança faz uma estreia.

Tenho que parar onde estiver, curvar-me diante do pânico evocativo.

Amo o que achava que não era meu. Apresso em comprimir os lábios prendendo o ar recente das palavras.

Não é nenhuma cena inesquecível, definitiva, tipo formatura, despedida, jura de casamento, pedido de perdão. Nada que seja obrigado a repetir para assegurar o convívio.

Lembrança mesmo não foi sublinhada, avisada. Lembrança mesmo tem importância atrasada.

Pequenos ensinamentos que ninguém me dizia justamente por serem pequenos. As hortaliças dos hábitos.

Minha namorada não me diminui para ser generosa. Explica o que ninguém quis. Talvez porque muitos deduziam que seria um absurdo desconhecer. Talvez não facilitasse a curiosidade. Talvez encarne um completo retardado para atitudes óbvias. Desenroscar um vidro de conserva me assusta mais do que correr uma maratona. Sou incompetente diante do abridor de lata, do alicate, do saca-rolha.

Talvez simbolize um problema sério dos casais. Pela ânsia de grandeza, não aceitam desperdiçar a memória com banalidades. Forçados a impressionar até na hora de acordar. Para gerar valor, seguem o comportamento de que devem falar coisas fundamentais o tempo todo.

O adulto pode regressar para a ignorância sempre que precisar.

Ela me explicou que não posso deixar o laptop ligado na eletricidade senão vicia a bateria. Não desistia da tomada para manter 100% de carga quando saísse para viajar. Sacrifiquei dois computadores pela desinformação.

Encontrei um risco no vidro dianteiro do carro. Já estava reclamando dos guardadores. Ela me explicou que é resultado do uso do limpador sem água e espuma. Tem sentido. A marca é uma meia-lua, bem no momento em que o aparador retorna.

Fracassava para fechar a mala amarela. Inchava as têmporas para negociar quais pares de sapatos entrariam no bote de salva-vida. Ela verificou que não soltava o forro. Arrebentei várias costuras por não sondar a existência de um zíper interno e discreto.

Escovava os dentes em movimentos horizontais. Rápidos e constantes. Com a pressa de bochechar. Ela me explicou que deveria articular gestos verticais e seguir o desenho das felpas.

E me explicou a recolocar o elástico nas calças, a regular máquina de lavar, a cumprir nó de marinheiro.

Eu lembro do que não preciso mais e estou salvo de mandar em mim.

Fabrício Carpinejar
arte: Mondrian

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