Essas coisas que a gente às vezes não entende


João Rebelde escuta durante os anúncios que sempre vêm logo depois da pregação que haverá uma reunião ao final do culto com todos os líderes da igreja. Insistem que o tema é de suma importância. A cara do Jorge Iscariotes, o encarregado das finanças da igreja, é de seriedade. “Será sobre o tema do dízimo outra vez?” se perguntou João. “Se é por isso, puxa, vai cair então o meu café por eu ser um líder que não dizima”. João pensa que o toleram porque ainda é necessário pela escassez de líderes.

Pepe Caifás (pastor assistente): Irmãos, nos reunimos aqui por causa de um tema muito importante. Talvez alguns saibam que uns dias atrás o Pastor Anás (pastor titular da igreja) recebeu um convite para pregar em uma igreja da denominação por ocasião do seu aniversário, e enquanto se encontrava ali roubaram-lhe seu carro. Oramos para que Deus castigue os malfeitores que fizeram essa monstruosidade contra um servo amadíssimo por Deus. Sem saber, esses indivíduos acumularam sobre seus ombros um castigo feroz por parte do Deus dos céus e da terra. Infelizmente o mal foi feito e, por isso, o tesoureiro Jorge Iscariotes fará uma proposta.
Sobe o tesoureiro. As pessoas, mudas e nervosas, não dizem nem uma palavra.

Jorge Iscariotes: Irmãos, como já escutaram, o pastor Anás não tem carro por causa do roubo sofrido enquanto pregava a Palavra de Deus. Por isto, surge a necessidade urgente de que um servo de Deus como ele tenha a reposição do veículo. Ele digno demais para ter que andar de táxi ou de transporte público. Cremos também que apesar das poucas entradas da igreja por causa do pouco compromisso que tem (os dízimos fracos) devemos responder a esta oposição do demônio com a maior dedicação, expressando a fé da melhor maneira.

João Rebelde (sussurrando ao amigo do lado): Isso não me agrada nem um pouco…

Jorge Iscariotes: Portanto, cremos que a expressão da fé é substituir o carro do pastor roubado – um carro coreano de 1995 – por uma SUV do ano, de preferência de fabricação Européia. Assim responderemos ao diabo, ridicularizando-o e proclamando a vitória do Senhor através da manifestação tangível da dignidade de seus filhos.

João Rebelde (sussurrando outra vez a seu amigo do lado): Se vier a facada, lembre-se de mim…

Jorge Iscariotes: Para que essa expressão de vitória se concretize, necessitamos da ajuda de todos vocês. Precisamos de uma oferta extraordinária, independente do dízimo, de duzentos dólares por família com filhos, cem dólares por pessoa sozinha com salário independente, vinte dólares por pessoa que recebe uma pensão de aposentadoria e o mesmo por jovem maior de 18 anos. Irmãos, este ataque espiritual contra o pastor Anás deve ser respondido! Ataquemos com as armas da fé! Todos nós, compremos algo à altura do pastor e Satanás não se atreverá a tocá-lo nunca mais! Irmãos, chamarei o pastor Caifás para orar e logo responderemos a perguntas e sugestões.
Depois da oração, a mão levantada de João Rebelde era a única que se distinguia entre todas as cabeças silenciosas.

João Rebelde: Irmãos, antes de comentar, uma pergunta prévia: o carro tinha seguro?

Pastor Anás: João, comprar seguro é uma falta de confiança, é não crer no cuidado de Deus. Jamais seremos acusados de falta de fé no corpo pastoral desta igreja.

João Rebelde: Entendo. Isso quer dizer que não tem nem um tostão para recuperar do roubo. E nós é que temos que assumir os passivos ao quadrado desse descuido.

Pastor Anás: Não entendo…

João Rebelde: Se tivessem feito o seguro, restituiriam mais ou menos a metade do custo do carro. Pelo menos teria algo. Mas tudo bem, aceitemos que não se faça o seguro. O que me parece absolutamente incompreensível é que nas condições dos dízimos da igreja pretendam fazer que os líderes paguem uma 4×4 de 25,000 dólares, e mais com esse argumento manipulador de “derrotar o diabo” e “à altura do servo de Deus”.

Jorge Iscariotes: Você se opõem à compra? Para você nosso pastor deve andar por aí como um qualquer? Não vê todas as bênçãos que Deus dá através dele?

João Rebelde: Me oponho por princípio aos privilégios. Se roubarem o carro que com certeza comprarei no futuro com muito esforço, e se cometo a irresponsabilidade de não fazer seguro, então devo assumir os custos totais. E se quero substituí-lo com outro muito mais caro, então devo ter poupança suficiente para ele ou uma linha de crédito bancária aprovada. Por que o pastor Anás não faz isso? Que frescura. Adoraria perder algo caro e que a igreja pagasse. Assim qualquer um. Os pastores nessa igreja definitivamente têm muuuuuuuito bons privilégios.

Jorge Iscariotes: A sua mesquinharia é colossal. Qual é o seu problema? Não diz a Bíblia que devemos cuidar dos nossos pastores?

João Rebelde: Claro, mas se pretendem comprar um carro – coisa que se pode discutir – que seja usado. Todas as semanas repetem e nos enchem com esse assunto de dízimo: que não dão, que tem pouco, que tem dívidas, que não pagaram os salários, que tem a luz, que tem a água, que tem os telefones. Se é assim, têm que ser prudentes e atenciosos, sendo conservadores. Duzentos dólares por família? É um abuso. De fato é um verdadeiro abuso. A propósito, no nome de quem está o carro?

Jorge Iscariotes: Neste caso, de quem o usa. Ou seja, no nome do pastor Anás.

João Rebelde: E não deveria estar no nome da igreja? Por que no nome do pastor Anás se comprou-se o carro anterior com os dízimos da igreja?

Pastor Caifás: Estamos entre irmãos e há confiança total. A propriedade é algo irrelevante.

João Rebelde: Não é irrelevante. Nem mesmo a pretensão de comprar um carro tão caro. Se é assim, amanhã vão querer construir um templo para mil pessoas sem ter o dinheiro necessário para isso. Depois vão querer uma rádio, e logo um canal de TV, esgotando os membros, manipulando alguns textos bíblicos para justificar, falando sempre de “fé”, “fé” e “fé”. Conseguiremos tolerar essas irresponsabilidades? É melhor cortar isso pela raiz desde agora, e nos livraremos de coisas muito ingratas no futuro. A saúde financeira antes de tudo, irmãos.

Texto de autoria de Abel García, de Lima, no Peru, originalmente publicado em seu blog.
Tradução: Gustavo K-fé

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