O império de (P)Edir Macedo (76)

– A Rede Globo passou a prestar mais atenção na Iurd e a fazer reportagens críticas em relação a ela quando Edir Macedo comprou a TV Record, em 1989. Como analisar essa briga religiosa invadindo a seara da mídia?

Vagner Gonçalves da Silva – São campos que se sobrepõem. O neopentecostal atualmente tem como centro a TV Record, que pertence a um sistema religioso. Há uma oposição à Record, que é a Globo, e há uma disputa entre as emissoras. Juntando a arrecadação entre os fiéis nos templos da Iurd e a publicidade na Record, há um poder muito grande. A Globo, que tradicionalmente procurou se associar à imagem da Igreja Católica, percebe que isso tem consequência em termos de audiência. Some-se tudo com a política e o quadro vai ficando cada vez mais complicado. O que é curioso é a lógica dos próprios campos, ou seja, o religioso, o político e o televisivo. Um age em função do outro: o religioso não age só em função do proselitismo, mas se alia à televisão, porque ela pode atingir milhões de pessoas, e a televisão enxerga n esse rebanho mais espectadores e, portanto, a oportunidade de vender mais publicidade. Já a política percebe que tanto o rebanho de fiéis quanto os telespectadores também são eleitores. Então todos esses segmentos, de telespectadores, de rebanho de fiéis e de eleitores, participam de uma engrenagem bastante interessante.

– A Iurd entrou com uma enxurrada de processos contra órgãos de imprensa, especialmente a Folha de S. Paulo, alegando que a liberdade religiosa dos seus fiéis tem sido atacada na imprensa. Não é uma situação curiosa, na medida em que ela costuma bater nos outros, mas demonstra não admitir a crítica?

Vagner Gonçalves da Silva – O que achei curioso nesse caso da Folha é a ação ter ocorrido em vários pontos do Brasil com a mesma formatação, e os juízes têm percebido como a Iurd consegue orquestrar uma ação em plano nacional. Aí há de fato uma questão de liberdade de imprensa misturada com a liberdade religiosa. A Iurd não estaria sendo coibida na sua liberdade religiosa, como acusa, se não avançasse sobre outro campo. Isso é problema para ela porque, quando avança sobre outra denominação, a Iurd avança exatamente como forma de proselitismo e acaba vivendo simbioticamente com ela. Hoje em dia é difícil pensar em culto da Iurd sem descarrego e sem todo aquele aparato que ela retira do afro-brasileiro e que é o que lhe dá movimento. A Iurd precisa e vive de quem ataca. Leia +.

trecho de entrevista que Paulo Hebmüller fez com Vagner Gonçalves da Silva, organizador do livro Intolerância religiosa – Impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro (São Paulo: Edusp, 2008).

fonte: IHU On-Line

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